Cristãos crucificados na Síria

Brasil de Fato : Ed. 585

 O episódio reforça a percepção de que toda a estratégia informativa dos grandes meios de comunicação está submetida aos interesses militares e geopolíticos. 

A grande mídia não hesita em publicar cenas chocantes que atraiam leitores. Basta lembrar das imagens do corpo ensanguentado de Muamar Gaddafi que foram es­tampadas em todos os grandes jor­nais e fartamente exibidas nos noti­ciários televisivos. Quando questio­nados, sempre alegam que o “com­promisso com a informação” es­tá acima de tudo. E explicam que o critério de escolha é o que satisfaz a curiosidade do público.

Com esta lógica, que imagem seria mais “jornalística” do que a de cris­tãos que foram crucificados, à véspe­ra da Sexta-Feira Santa?

A notícia foi inicialmente veicula­da na Rádio Vaticano por uma frei­ra síria de que cristãos que se recu­saram a professar a fé muçulmana ou pagar resgate foram crucificados por jihadistas. De acordo com ela, depois dos massacres, os jihadistas “pegaram as cabeças das vítimas e jogaram futebol com elas”, e ainda levaram os bebês das mulheres e “os penduraram em árvores com os seus cordões umbilicais”.

As fotos chocantes dos crucifica­dos estavam disponíveis pelas gran­des agências de comunicação que, negando sua “lógica de informação” resolveram omiti-las, e apenas as di­vulgaram como notícias secundá­rias, quando o papa Francisco con­fessou ter chorado ao saber da no­tícia e ver as imagens, durante a ho­milia da missa que realiza a cada manhã em sua residência no Vatica­no. “Eu chorei quando vi nos meios de comunicação a notícia de que cristãos foram crucificados em cer­to país não cristão”, explicou o papa em referência ao acontecimento du­rante a guerra civil síria.

Mesmo após a declaração do papa, os principais jornais brasileiros se­guiram o padrão internacional, co­locando a chocante foto em páginas secundárias e assegurando como fo­to da manchete principal os inci­dentes na Ucrânia. A razão é sim­ples: os autores dos crimes na Síria são o principal componente das cha­madas “Forças Rebeldes” que lutam contra a ditadura de Bashar Assad. A divulgação traria à tona a crescen­te hegemonia de grupos fundamen­talistas islâmicos na conformação do “Exército Rebelde”, o fornecimento de armas e munições por países alia­dos aos Estados Unidos e o questio­namento aos “lutadores pela liber­dade da Síria”. Cenas violentas so­bre este conflito devem ser exibidas, mas sempre lançando genericamen­te a responsabilidade nas forças do governo Assad. Como neste caso não poderiam, optaram pela omissão.

O episódio reforça a percepção de que toda a estratégia informativa dos grandes meios de comunicação está submetida aos interesses mi­litares e geopolíticos. De fato, tor­nou-se um chavão constatar que a grande mídia atua com uma unida­de política e ideológica de um ver­dadeiro partido da classe dominan­te. São os famosos PiG’s (Partidos da Imprensa Golpista), populariza­dos pelo jornalista Paulo Henrique Amorim. Porém, no plano interna­cional esse funcionamento “parti­dário” é assegurado pelas grandes agências internacionais, especial­mente pelos grupos monopólicos estadunidenses. As imagens e infor­mações produzidas pelo monopólio hegemonizam as publicações, num controle sem precedentes na mo­derna história das comunicações.

Basta comparar as manchetes e coberturas dos principais jor­nais do mundo para constatar as mesmas imagens, mesma abor­dagem e idêntica pauta. Se um fa­to, por mais estarrecedor que seja, não convém politicamente é preciso nada menos que o papa chamar a atenção para que seja divulgado se­cundariamente.

Não fosse a declaração do papa, as imagens teriam sido omitidas completamente, e quando divulga­das, são tratados como um fato me­nor, preteridas pela cobertura jor­nalística da Ucrânia onde os edito­rialistas afirmam ocorrer um confli­to entre os interesses do “ocidente” e da Rússia.

Como nos antigos parques de di­versões que traziam como atração uma “Casa de Espelhos” que dis­torciam as imagens, a grande mídia em sua manipulação cotidiana au­menta a proporção de fatos e omite ou reduz outros, pautando a com­preensão sobre o mundo. Exibem imagens diárias de conflitos contra o governo na Venezuela, sem mos­trar sua dimensão, sem mostrar as manifestações de apoio. Supervalo­rizam as manifestações da oposição e omitem os apoios. A pretensão é gradativamente construir a opinião pública de que o governo de Nicolas Maduro é insustentável.

Como afirmou Fernando Lugo, o presidente paraguaio deposto por um golpe parlamentar em ju­nho de 2012, “possivelmente, os novos golpes na América Latina não vão sair dos quartéis milita­res, mas das multinacionais e dos meios de comunicação”.