Dois fatos e suas lições para a luta política

Brasil de Fato : Ed. 510

A relação entre política, mídia conservadora e judiciário dentro de um projeto neocolonialista e antinacional expressa uma nova etapa de ofensiva da direita brasileira.

 

 

Dois fatos ocorridos na última semana merecem ser destacados, pois eles também trazem importantes tendências da luta política. O primeiro refere-se ao fato do relatório da CPI do Cachoeira apresentado pelo relator Odair Cunha (PT-MG) que, infelizmente, recuou e não indiciou Policarpo Júnior, editor-chefe da reacionária revista Veja. Para completar o vergonhoso recuo, o relatório apresentado pelo deputado petista também não sugere que o Procurador- Geral da República Roberto Gurgel seja investigado pelo Conselho Nacional do Ministério Público.             

Sabe-se que chegaram até a CPI do Cachoeira provas concretas que demonstram que o jornalista Policarpo Júnior, em nome da revista Veja, construiu uma relação de cumplicidade com a quadrilha de Cachoeira num processo de retroalimentação no qual os serviços de Cachoeira facilitavam a construção das mentiras e de factóides políticos da Veja. Ao mesmo tempo, a revista abria espaço para Cachoeira potencializar sua rede de influência e chantagear seus concorrentes com denúncias etc.   

Nessa mesma CPI também se constatou a conivência do Procurador- Geral da República Roberto Gurgel com as ações criminosas da quadrilha de Cachoeira. Sem dúvida, existem provas sufi cientes para o indiciamento de Policarpo Júnior junto ao poder judiciário e para a sugestão aos foros competentes para que Gurgel fosse investigado. No entanto, o que se viu foi um recuo do PT e uma vitória do dispositivo midiático conservador que segue sua ofensiva contra Lula e os interesses populares.  

Já no final dessa mesma semana, no dia 30 de novembro, a presidenta Dilma editou uma Medida Provisória (MP) que representa uma vitória histórica para o povo brasileiro. De acordo com essa MP, 100% da verba dos royalties do petróleo serão investidos no setor da educação, assim como 50% do fundo social do pré-sal também serão direcionados para a educação. Essa é uma conquista que vem no bojo da luta pelos 10% do PIB para educação. Depois de algumas mobilizações e de muita pressão institucional liderada pela União Nacional dos Estudantes (UNE) a presidenta Dilma assumiu o compromisso com essa bandeira.          

Ainda assim, a presidenta Dilma com sua veia tecnicista não tardou constatar que esse percentual de investimento de 10% do PIB para educação só seria viável se pelo menos 50% dos recursos do fundo social do pré-sal e a totalidade dos recursos dos royalties fossem destinados para a educação. A proposta do Plano Nacional de Educação que garante 10% do PIB para educação está prevista para ser votada no início do próximo ano. Esta medida, além de evitar a famosa doença holandesa, ou seja, a especialização regressiva da economia em torno de um recurso natural, que tradicionalmente acomete os países que descobrem petróleo, garantirá fortes investimentos em ciência e tecnologia que podem viabilizar uma industrialização soberana.             

Como se situa na conjuntura o vergonhoso relatório da CPI do Cachoeira e essa importante conquista da sociedade brasileira em torno da pauta da educação? Na verdade, intencionalmente ou não, a Medida Provisória editada pela presidenta que garante mais investimentos em educação é também uma resposta à ofensiva conservadora que os inimigos do povo estão fazendo contra o PT e as forças populares. Para cada ataque articulado pela imprensa conservadora, por esse judiciário antipopular e pelos partidos que expressam o polo neoliberal, o governo Dilma e as forças populares devem responder com medidas democráticas e populares.     

A relação entre política, mídia conservadora e judiciário dentro de um projeto neocolonialista e antinacional expressa uma nova etapa de ofensiva da direita brasileira. Na verdade, a tendência é que a luta política no Brasil ganhe contornos cada vez mais polarizados. Um elemento novo poderá surgir na medida em que ocorrer a convergência destas contradições com a disposição da jovem classe trabalhadora em formação para a luta. Esperamos que a mobilização da classe trabalhadora nos próximos meses tenha força sufi ciente para deslocar o centro da luta política da arena parlamentar para as ruas, que é onde de fato as mudanças estruturais na sociedade se concretizam.   

Sabemos que alguns recuos do PT na arena da luta parlamentar são produto da instabilidade da própria base de sustentação do governo Dilma. Some-se às chantagens do PMDB com seu tradicional fisiologismo. Mesmo assim, derrotas como a da CPI do Cachoeira são preocupantes, pois elas significam ânimo para os inimigos do povo num momento em que a conjuntura tende a ficar mais polarizada. As forças populares precisam ficar atentas para estas movimentações da direita.

Ano: 
2012