Elites seguem suas cruzadas antipovo

Brasil de Fato : Ed. 635

 

A luta de classes segue mais presente do que nunca. Façamos do 1o de Maio um grande dia de luta. A reação conservadora só contribui para não perdermos de vista os nossos ideais

29/04/2015

Editorial da edição 635 do Jornal Brasil de Fato

Causa espanto como alguns setores conservadores da sociedade, aproveitando do discurso de ódio que emergiu com mais força recentemente, tentam constranger quaisquer iniciativas que acenem para ideias progressistas.

No dia 21 de abril, o governador do estado de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), ousou conceder a Medalha da Inconfidência ao dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile. A escolha dos homenageados é feita pelo Conselho Permanente da Medalha Tiradentes, composto por diversos reitores de universidades, coronéis da Polícia Militar, os presidentes do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas do Estado, dentre outros notáveis, que aprovaram por unanimidade a indicação de Stedile.

A reação do conservadorismo foi imediata. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a oposição ameaça cassar a concessão através de Decreto Legislativo. No dia seguinte à concessão da honraria, foi publicado em todos os jornais mineiros e nos veículos de comunicação nacionais nota de repúdio de página inteira, assinada pelas associações patronais do estado: Faemg, Ciemg, Fiemg, Acminas, Fecomércio, Ocemg, FCDL, Fetcemg, Federaminas e CDL.

Perderam oportunidade de ficarem calados. A mesma medalha, durante os 12 anos de gestão do PSDB, foi entregue a assassinos confessos dos fiscais do trabalho em Unaí, os irmãos Mânica. Nada falaram quando os governadores que antecederam Pimentel outorgaram a mesma honraria a políticos corruptos condenados, a ex-torturadores da ditadura, a coronéis que comandam a mão-de-ferro seus currais eleitorais nos rincões de Minas Gerais.

Logo, percebe-se o uso político que buscaram fazer em momento de acirramento da luta política no país; afinal, o ex-governador de Minas, Itamar Franco, já havia concedido a mesma medalha ao MST, em 21 de abril de 1999.

Deveriam ter também se manifestado quando o Papa Francisco recebeu João Pedro Stedile no Vaticano, para ajudar a coordenar um encontro mundial de líderes populares.

A luta que tentam travar os porta-vozes da direita raivosa é ideológica, conjuntural, caudatária da tentativa de desestabilizar as forças democráticas nacionalmente, criando um clima de medo e de conflagração social.

A Medalha da Inconfidência tem como parâmetro o mérito pessoal e os serviços prestados à coletividade. Condição a qual o MST e sua principal liderança se enquadram. Afinal, o que presenciamos são lideranças do MST, incluindo o próprio homenageado, realizando em todo o país a luta anti-imperialista, em defesa das riquezas nacionais, como o Pré-Sal e a Petrobras, contra as tentativas de golpe institucional, e em defesa dos valores da democracia e da República.

Como bem destacou artigo de juristas em defesa da entrega da medalha ao líder sem-terra, João Pedro é “a melhor expressão do pensamento de Tiradentes, e do simbolismo de sua luta contra a tirania colonizadora. O Tiradentes da atualidade é o Stedile!”

Não é de assustar esse comportamento. O tratamento dispensado pela Casa Grande, nunca foi o de conceder medalhas a quem eles julgam que não deveria ter saído da senzala. Aliás, diante da ofensiva da Câmara de Deputados pela retirada de direitos, através do PL 4330 das terceirizações, logo se vê, que desejam mesmo é o aumento da opressão sobre os trabalhadores. O mesmo Congresso que busca instalar mais uma CPI contra o MST.

O linguista e cientista político estadunidense Noam Chomsky ajuda a entender o ódio aos sem-terra. Para ele, o MST é o movimento popular mais importante do mundo. Reconhecimento feito também pelo Papa Francisco.

As elites e seus parlamentares que condenam são os mesmos que não aceitam a regulamentação do confisco de terras flagradas com trabalho escravo. Os mesmos que impedem a atualização dos índices de produtividade da terra, que são ainda da década de 1970. Os mesmos que ameaçam e chacinam os indígenas ao ocuparem suas terras e impedem a regulamentação das mesmas.

A reforma agrária não teria andado o pouquíssimo que andou, no período recente, se não fosse a pressão dos de baixo, dos condenados à pobreza pelo latifúndio, e a organização política que construíram.

Sem dúvida, se não fosse o MST, teríamos menor acesso a alimentos saudáveis, e o debate sobre agroecologia estaria mais incipiente no Brasil. Se não fosse o MST teríamos menos cidadania no Brasil, menor protagonismo das forças democráticas desse país.

A luta de classes segue mais presente do que nunca. Façamos do 1o de Maio um grande dia de luta. A reação conservadora só contribui para não perdermos de vista os nossos ideais.

Ao receber a Medalha da Inconfidência, João Pedro Stedile mostra que o MST seguirá ocupando não somente as terras improdutivas, mas bastiões ocupados historicamente pelas elites. E como sabemos, a reação virá. Estejamos preparados para desalojá-los das suas velhas trincheiras, de onde oprimem os trabalhadores. 

Editor: 
Nilton Viana
Ano: 
2015