Esculachar os torturadores, até que sejam punidos

Brasil de Fato : Ed. 481

Em sua segunda rodada de “esculachos” denunciando os torturadores, o Levante Popular da Juventude nos enche do orgulho de pertencer ao povo brasileiro


A instalação da Comissão Nacional da Verdade e Justiça inaugura uma nova etapa no enfrentamento do maior trauma histórico do povo brasileiro: os crimes cometidos pela ditadura civil-militar. Com ela, abre-se a possibilidade de conhecer a verdade sobre os processos de tortura, estupro, morte e desaparecimento forçado dos homens e mulheres que resistiram ao período ditatorial em nosso país.

Também, através da Comissão, a mobilização popular poderá levar ao conhecimento da sociedade as lutas e a resistência daqueles que enfrentaram o fascismo e os nomes dos agentes do aparelho repressivo e os crimes por eles cometidos.

Em cada denúncia, em cada depoimento, será possível fornecer os elementos necessários para que os torturadores, estupradores, homicidas e sequestradores que agiram em nome da ditadura civil-militar e escondem até hoje seus crimes e sua covardia possam ser responsabilizados e punidos, como determinou a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Sabemos que sem o impulso das mobilizações populares, a Comissão Nacional da Verdade e Justiça pouco poderá fazer. Sua importância principal é tornar-se uma ferramenta que possibilite o surgimento de inúmeras outras comissões estaduais, municipais em sindicatos e universidades.

A auto-anistia praticada pela ditadura em 1979 é inaceitável. Aprovada em um Congresso sem legitimidade, controlado por atos institucionais, fruto de uma estratégia de preservação dos repressores, nenhuma interpretação do Supremo Tribunal Federal terá a capacidade de aceitar sua constitucionalidade.

Não permaneceremos como o único país da América Latina que não julgou criminalmente seus carrascos da ditadura militar.

Um governo ilegítimo, nascido de um golpe militar, não pode fazer desaparecer as pessoas, condenando seus próximos a indizível sofrimento e marcando para sempre suas vidas. O Estado não pode acobertar crimes sexuais cometidos em seus porões e toda sorte de crueldades praticadas por seus agentes. Não é esquecendo as atrocidades que deixaremos de repeti-las.

Exigir a punição de criminosos não é “revanchismo”. É justiça.

Em sua segunda rodada de “esculachos populares” denunciando os torturadores, o Levante Popular da Juventude nos enche do orgulho de pertencer ao povo brasileiro.

Nenhum pacto da classe dominante, nenhuma decisão da Corte Suprema, nem mesmo o transcorrer do tempo, pode aplacar a força da dignidade e o compromisso com a verdade que impulsiona os jovens lutadores.

Corajosos e organizados, os jovens assumem seu papel na história de arrancar dos covis os carrascos do povo brasileiro e execrá-los perante a sociedade pelo método do escracho popular. Ao contrário dos repressores - que se utilizavam da calada da noite para invadir casas e sequestrar - agem à luz do dia, sem esconder os seus rostos.

Quem praticou tantos horrores nas salas de tortura não pode permanecer esquecido, escondido em sua covardia. Resgatar esses episódios é o caminho para superarmos o grande trauma nacional da ditadura. Está é a nossa história e não permitiremos que seja abafada.

Se os repressores fogem e se desesperam humilhados com os esculachos populares é por não suportarem a verdade. É por saberem que as denúncias lhes reavivam os terríveis crimes que cometeram. Sabem que enfrentarão os olhares de seus vizinhos e colegas de trabalho.

Quando imaginavam poder esquecer seus crimes e gozar suas aposentadorias e lucros advindos do crime, os carrascos dos lutadores se deparam com a persistência de jovens que apenas lhes ameaçam com a memória.

Em suas denúncias, os jovens se valem apenas da força da verdade.

– Onde estão os nossos desaparecidos?

– Como foram mortos?

– Quem os torturou?

Estas são as grandes interrogações que deverão pautar a Comissão Nacional da Verdade e Justiça.

Até que a Justiça impere e os torturadores sejam punidos, as denúncias e os esculachos dos agentes repressivos serão o caminho legítimo para encontrar a verdade.

Que mais esculachos ocorram e que o pavor da verdade atormente a consciência dos criminosos.

Ano: 
2012
  • Formato de biblioteca: