Nas Lutas, Construiremos o Exemplo Pedagógico do Projeto Popular.

 

                                 

                   Consulta Popular

 

                          Nas Lutas, Construiremos o Exemplo Pedagógico do Projeto Popular.

                É cada vez mais nítido que o capitalismo está enfrentando uma crise sistêmica muito grave. Uma crise profunda, recessiva e prolongada que atualmente afeta o setor financeiro, mas não tardará a afetar a produção.  A especulação imobiliária, a especulação das moedas combinadas com as vendas a prazo,  apenas para cobrar os juros dos consumidores, deflagrou uma grave crise nos Estados Unidos desmascarando os limites da fictícia valorização financeira, suas contradições e seu caráter parasitário.

                Não se trata de uma mera desacelaração da economia, mas de uma crise profunda que vai alterar o cenário político mundial no próximo período.

                Os acontecimentos das últimas semanas confirmam as previsões de nossa análise aprovada na 3ª Assembléia:

“A estratégia dos EUA para se manter hegemônico exige cada vez mais o controle dos processos de criação e apropriação do valor  e das riquezas. Mesmo quando os indicadores econômicos são positivos, fica nítida a profundidade da crise dos EUA. O crescimento não gera novos empregos e se alicerça, sobretudo, na captação dos fluxos mundiais de capitais a partir do controle do dólar. Por meio desse mecanismo, consegue compensar seu gigantesco déficit. Porém, com a capacidade de endividamento da sociedade estadunidense se reduzindo, tudo indica que nos próximos anos enfrentaremos turbulências de efeito imprevisível nas chamadas economias periféricas”.

                A crise se alastrará, afetando a economia dos países periféricos. Sua conseqüência previsível é o aumento dos índices de desemprego e agravamento das condições de vida afetando cruelmente o mundo do trabalho.

                Os países de nosso continente têm suas reservas em dólar e títulos dos EUA, fator de grande fragilização na atual crise.

                A conseqüência deste cenário é  a perda de hegemonia política e econômica dos EUA com a retomada de um cenário multipolar. Tal situação não se dará sem sobressaltos. Neste contexto não está descartada a possibilidade de soluções militares, utilizando-se a guerra como uma saída para a superação da crise.

                O ataque do governo colombiano ao território do Equador, com o patrocínio dos EUA é parte deste contexto ofensivo e mostra uma inflexão do império em levar sua lógica de agressão militar direta ao nosso continente. Tal atitude exige uma resposta firme de todas as forças antiimperialistas de nosso continente.

                Embora alguns países da América Latina revelem uma crescente disposição de lutas de massa, ainda predomina um quadro de refluxo e apatia que limita a capacidade de resposta das forças populares. O rápido agravamento da crise econômica do capitalismo vai alterar esse quadro, mas para que isso se potencialize no sentido de transformações sociais é fundamental que as forças populares  desenvolvam uma estratégia internacional de construção de um projeto internacional e popular.

                Neste momento, consideramos essenciais as seguintes tarefas no plano internacional:

- apoiar a candidatura de Fernando Lugo do Movimento Tekojoja nas eleições do Paraguai, que representa uma alternativa popular antiimperialista e antineoliberal.

- incrementar a solidariedade ao povo palestino que enfrenta os ataques genocidas de Israel e fortalecer a campanha contra o Tratado de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel.

- Retomar a bandeira da paz,  a nível internacional como forma de fazer frente à estratégia belicista do império.

- Apoiar o fortalecimento da ALBA e a construção de seu conselho de movimentos sociais.

 

                As crises anteriores da economia internacional acarretaram mudanças econômicas institucionais que acabaram contemplando todos os setores da burguesia e jogando o peso nas costas dos trabalhadores. A natureza e profundidade da atual crise podem gerar tensões e disputas interburguesas entre os setores sustentados no capital financeiro e os setores industriais. Evidente que não serão graves contradições devido ao grau de entrelaçamento destes setores, mas mera disputa de alternativas que tendem a se refletir na luta política.

                O desgaste da ofensiva neoliberal, nos últimos anos, deslegitimou governos, partidos burgueses e a própria democracia burguesa enquanto forma de dominação. Em cada país de nosso continente as massas elegeram candidatos que aparentavam ser uma alternativa ao neoliberalismo.

                Conforme avaliamos em nossa 3ª Assembléia, o Governo Lula segue mantendo sua política neoliberal. Beneficiado pelos anos de crescimento econômico, o governo aprofunda a política econômica que assegura plenas vantagens aos diversos setores da burguesia, enquanto mantém políticas compensatórias para os 20% mais pobres.

                Tal situação vai se inviabilizar com a generalização e aprofundamento da crise econômica internacional, determinando um novo cenário. Diante desse quadro que vai se conformando é fundamental construir uma alternativa popular. Será necessário um enorme esforço de todas as forças populares, sociais e partidárias de esquerda,  para construir a unidade em torno de uma concepção estratégica e um programa antineoliberal e antiimperialista, que identifique quem são de fato os inimigos de classe, apresentando uma proposta clara de reformas estruturais, necessárias para resolver os problemas do povo, como a reforma agrária, a mudança do modelo econômico que garanta uma política de pleno emprego, de distribuição de renda,  de valorização dos salários, de universalização da educação superior, da redução da jornada de trabalho, de retomada das empresas privatizadas e estatização do setor financeiro.

                        As forças populares precisam retomar a iniciativa política, deixando de pautar-se pela agenda e temas definidos pela classe dominante e seus meios de comunicação. A mobilização social se constrói em torno de necessidades reais colocadas pela conjuntura, mas nosso papel é potencializar cada luta contra os inimigos de classe, construindo a unidade em torno de ações concretas. Neste contexto, as ações das mulheres da Via Campesina são um exemplo de combatividade, exemplo pedagógico e identificação do verdadeiro inimigo, demonstrando o potencial das lutas para superar os debates sectários que dificultam a unidade de classe.

                Este é o caminho a ser reforçado e expandido a todos os setores da sociedade. Esta é a simbologia dos Lutadores do Povo.

                        Nosso papel é insistir na construção de processos unitários de mobilizações e lutas, que envolvam o conjunto das forças populares, trabalhando em todos os espaços pela construção de uma unidade das forças populares. Uma unidade em torno de lutas e de um programa antiimperialista e antineoliberal.  Este programa, detalhado de forma minuciosa no texto “O Brasil que Queremos” da Assembléia Popular é constituído de medidas que já são assumidas pela maioria das organizações políticas, movimentos sociais e articulações unitárias.

                Não será fácil cumprir esta tarefa. Enquanto uma parte da esquerda acomodou-se burocraticamente ao papel de sustentação do governo, rebaixando seu horizonte programático, outros setores  perderam a referência do inimigo e passaram a se pautar exclusivamente pela lógica de construir uma oposição eleitoral ao governo Lula, mesmo que isso implique em alianças pontuais com a própria burguesia.

                Em 2007 demos passos, ainda tímidos, na superação da quebra da unidade política das forças populares, ocorrida desde a posse do primeiro governo Lula em 2003.  A construção do ato unitário contra Bush, da jornada de lutas no dia 23 de maio, da jornada dos estudantes e do Plebiscito Popular sobre a Vale do Rio Doce foram momentos importantes desta construção da unidade.

                Este ano, com a lógica da centralidade eleitoral presente na tática de várias organizações da esquerda enfrentaremos maiores dificuldades na construção de lutas unitárias. Porem devemos persistir neste esforço. Nas maiores cidades, amplia-se a descrença no papel das candidaturas e eleições como ferramentas de mudança e os partidos eleitorais de esquerda enfrentarão o pleito de 2008 ainda mais fragmentados e divididos.

                Insistimos que a unidade somente se construirá em torno das lutas.

                Não ficaremos paralisados ante a resistência em lutar conjuntamente, seguiremos construindo o calendário de lutas aprovado pela Assembléia Popular sempre abertos para envolver todas as forças dispostas a lutar unitariamente.

                Desde já é preciso preparar-se para construir uma expressiva jornada de lutas em julho, envolvendo o máximo de setores e forças sociais neste processo. Esta é a tarefa central no atual momento.

                Entre as bandeiras de luta, integrantes do calendário unitário, destacamos neste momento:

                        - Combater o projeto de Reforma Tributária apresentada pelo governo. Trata-se de uma proposta claramente neoliberal que abre condições para o desmonte da previdência social e do Sistema Único de Saúde.    Nosso papel é contrapor a esse projeto uma alternativa tributária que favoreça os interesses populares criando impostos sobre as grandes fortunas e penalizando progressivamente o capital para assegurar os serviços públicos.

 

                - Compreender que a questão da energia é um tema fundamental que possibilita lutas unitárias e mobilização social. Nosso papel é aprofundar este debate, enfrentando o tema do modelo energético e do controle de nossos recursos estratégicos pelas grandes corporações transnacionais. A reivindicação das tarifas sociais possui grande capacidade de mobilização, exigindo ações de agitação e propaganda.

                - Prosseguir com as denúncias e manifestações pela reestatização da Vale do Rio Doce.

                - Enfrentar as grandes corporações que controlam a agricultura e ameaçam nossa soberania alimentar e energética.

                - Participar da luta pela redução da Jornada de Trabalho.

                É preciso preparar-se para uma nova conjuntura de reascenso da luta de massas. Nossa tarefa central segue sendo investir no tripé da acumulação de forças: formação de quadros, estímulo de luta de massas e aprofundamento da organização.

                Pátria Livre. Venceremos!

                São Paulo, 14 de março de 2008.

 

                Coordenação Nacional da Consulta Popular

Editor: 
Consulta Popular, 14 de março de 2008.
Ano: 
2008