O fato é que os barões da mídia esperneiam por não “compreenderem” os ventos que sopram no momento atual

Brasil de Fato : Ed. 504

Entre os dias 12 e 16 de outubro, reuniram-se, em São Paulo (SP), os barões da mídia, para realizar a 68ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Essa organização nasceu em Cuba, durante a ditadura de Fulgencio Batista, quando a ilha caribenha se notabilizava pelos cassinos e prostíbulos controlados pela máfia. A Revolução Cubana de 1959 mudou essa realidade. Há outra razão para a SIP ter tanto rancor e ódio dos irmãos Castro?          

Mais tarde, sediada em Miami (EUA), a SIP transformou-se rapidamente em um braço funcional da CIA. Nessa condição, apoiou e se beneficiou das ditaduras militares que se instalaram no continente latino- americano.   

Hoje, esses mesmos que vicejaram nas sombras das ditaduras, se dizem paladinos da democracia e se mostram preocupados com os governos populares democraticamente eleitos. Para os barões da mídia, os governos da Argentina, Equador, Bolívia e Venezuela são antidemocráticos e atentam contra a liberdade da imprensa, ao dar voz e vez aos pobres.    

A presidenta Dilma Rousseff, que era aguardada para a cerimônia oficial de abertura da SIP, dia 15, não compareceu ao evento. Já o governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, encontrou uma forma criativa para ridicularizar a plateia da assembleia, proferindo o mesmo discurso feito em maio deste ano em um seminário sobre liberdade de imprensa, organizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais.               

Se a presidenta esteve ausente e se o governador paulista foi para repetir um discurso já feito, restou, então, ao presidente da SIP, Milton Coleman, elogiar o prefeito Gilberto Kassab. Ao agradecer pelo coquetel oferecido no Teatro Municipal, Coleman foi enfático: “O senhor é bom de festa! Tem futuro depois que sair da prefeitura”. Pelo jeito, para a SIP, o bom governante é o que lhe é servil para oferecer canapés – às custas dos cofres públicos – em ambientes aristocráticos.

Terá a SIP alguma vez imaginado o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, ou a presidenta Cristina Kirchner, da Argentina, nessa tarefa? 

Na abertura do evento coube a Paulo de Tarso, representando o comitê anfitrião, não dizer nada porque, de acordo com ele, “os discursos, como as saias, devem ser bem curtos”. Com tais palavras, o orador do comitê, provavelmente ávido para ver seu desejo se materializar, passou a palavra à primeira palestrante: a atriz Regina Duarte. A atriz se ao menos tivesse seguido a um dos dois conselhos do orador, o do discurso, teria sido mais produtiva em sua palestra. Citou Roberto Civita, dono da revista Veja, como defensor da imprensa livre. Civita é o que viveu uma vida apodrecida, nas palavras do ex-deputado Roberto Jefferson. A atriz desconhece o conluio da Veja com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, hoje preso, para produzir reportagens de ataque aos governos de Lula e Dilma? Contra os abusos da mídia, a atriz não hesitou em dizer que duas forças deveriam ser usadas: a própria mídia, através da regulação, e o poder do leitor, através do controle remoto.    

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com a argúcia que lhe é particular, foi além e vaticinou: “Hoje a imprensa é um procedimento que tem muito mais filtros, não é mais a voz do dono.    

Tem o repórter, o editor, o revisor. Se mesmo assim alguém não se sentir contemplado, que reaja e escreva pra seção de carta do leitor”. Se essa lição do FHC tivesse vindo antes, os donos do Estadão não teriam demitido a colunista Maria Rita Kehl, em 2010, por ter criticado o candidato à presidência da República defendido pelo jornal, José Serra. Deveria esperar a reação dos leitores ao artigo escrito.                

Serra, hoje candidato a prefeito de São Paulo, não precisava mandar a Polícia Militar invadir a sede do sindicato dos bancários para apreender a Folha Bancária que iria publicar seu currículo de vida e sua proposta de governo. Aliás, se Serra usar mais o controle remoto e a sessões de cartas dos jornais, seguindo os conselhos dos tucanos palestrantes na SIP, certamente economizará telefonemas para os donos dos jornais, nas madrugadas, para pedir a cabeça dos jornalistas que lhe fazem perguntas embaraçosas.    

Mas a recomendação de usar o controle remoto e a sessão de cartas para normatizar a mídia, traz outro recado: é o leitor, o telespectador, o ouvinte de rádio, o responsável pelo mau jornalismo, pela falta de ética e abusos cometidos pelos proprietários dos meios de comunicação. O ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, que teve sua reputação agredida por reportagens mentirosas da Veja, deveria se contentar em escrever para sessões de cartas ou processar os leitores da revista que não fizeram nada para coibir os abusos do proprietário de vida apodrecida? Na certeza que FHC não esqueceu o que escreveu, é certo que ele mesmo não acredita no que fala hoje.          

A ausência da presidenta Dilma no convescote, além de deixar os barões aborrecidos, pode ter deixado-os, também, preocupados. Dependentes das verbas de publicidade pública, a acertada decisão da presidenta pode servir de recado para seus ministros e para os parlamentares da bancada de apoio ao governo. Parem de ser servis ao poderio da mídia. Parlamentares como o senador Roberto Requião (PMDB/PR) há muito tempo afirmam que é infundado o medo e o servilismo imposto pela mídia às autoridades – vide agora o STF no caso mensalão.   

Para o ex-ministro José Dirceu “o país precisa aprovar leis que regulem o direito de resposta, a defesa à privacidade do cidadão, que garantam a existência de uma mídia plural e que impeçam, de fato, o monopólio ou os oligopólios nos meios, como está na Constituição brasileira e como estão fazendo a Venezuela, a Argentina e o Equador.”             

O fato é que os barões da mídia esperneiam por não “compreenderem” os ventos que sopram no momento atual. São saudosistas das sociedades que idealizavam no bordel de 1943. Porém, mais cedo do que imaginam, as conquistas democráticas chegarão também aos meios de comunicação.

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