Sobre a tragédia de Santa Maria

Brasil de Fato : Ed. 518

Nesse momento, de profunda tristeza, devemos fazer uma reflexão sobre esse conjunto de valores que predomina em nossa sociedade e que legitima a mercantilização de todas as esferas da vida humana, inclusive o lazer

30/01/2013

 

O povo brasileiro está de luto nesse início de 2013. A morte de mais de 230 pessoas num incêndio ocorrido numa boate no município de Santa Maria (RS) deixou a sociedade brasileira perplexa e despertou solidariedade em todo o território nacional. A tragédia, que aconteceu na madrugada do dia 27 de janeiro, atingiu principalmente a juventude. Na noite do dia 28, o Ministério da Saúde confirmou que entre os feridos no incêndio na boate Kiss havia ainda cerca de 75 pacientes em estado grave com risco de morte. Essa tragédia, que ceifou a vida de dezenas de jovens, mostra que é necessário refletirmos sobre as perspectivas e os desafios da juventude brasileira e sobre a falta de regulamentação de setores que atuam na esfera privada em nosso país.

Este lamentável fato não pode ser simplesmente resumido ao elemento da fatalidade. As sociedades humanas não são produto de fatalidades, mas sim de construções sociais. As fatalidades, as atitudes irrefletidas, sempre ocorrem em sociedades que disseminam um conjunto de valores que norteia homens e mulheres. Nesse momento, de profunda tristeza, devemos fazer uma reflexão sobre esse conjunto de valores que predomina em nossa sociedade e que legitima a mercantilização de todas as esferas da vida humana, inclusive o lazer.

Infelizmente, os planos diretores que têm por função regulamentar as esferas públicas e privadas das cidades acima de 20 mil habitantes quase sempre são letra morta quando se trata de ordenar e conter os interesses dos capitalistas. O triste fato de Santa Maria é um exemplo disso. Já foi divulgado que a boate Kiss está com seu alvará de funcionamento vencido desde agosto de 2012. Para além de uma fatalidade, essa tragédia demonstra que existe um certo empresariado lumpen no Brasil que não poupa esforços para instrumentalizar nossa juventude para viabilizar seu lucro fácil. A vida das pessoas, em especial da juventude, pouco importa para certos setores capitalistas.

Na sociedade do capital o lazer é uma mercadoria que potencializa a alienação. Na verdade, junto com a busca do lucro fácil em torno da juventude, temos também a disseminação de valores típicos de uma sociedade em crise. Nesse sentido, se por um lado constatamos o extermínio da juventude pobre e negra nas periferias, por outro, constatamos a captura ideológica de parte da juventude de classe média ao paraíso da alienação e da despolitização. É isso que o capitalismo tem a oferecer para nossa juventude. Para romper com esta lógica alienante do capitalismo, nossa juventude deve ser portadora de um projeto político de natureza popular. Um projeto político que assuma os destinos da nação e que avance na organização da juventude brasileira.

O caso de Santa Maria é, portanto, somente a ponta do iceberg. No Brasil, o próprio Estado mercantiliza e banaliza o lazer. Trata o lazer do povo brasileiro como uma política de pão e circo. Governos estaduais e municipais não têm o menor pudor em saquear os cofres públicos e repassar cachês milionários para grupos musicais e artistas enquanto falta saúde e educação no cotidiano da população.

Além de punição para os responsáveis por esta tragédia, a sociedade brasileira deve exigir que se aperfeiçoem e que se cumpram as leis que buscam regulamentar as relações entre os interesses públicos e privados no Brasil. Não podemos permitir que a busca incessante do lucro esteja acima da vida e do bem-estar do povo brasileiro. Que o caso de Santa Maria sirva de exemplo.

Ano: 
2013