Marcha Popular Pelo Brasil

Marcha Popular Pelo Brasil

Passos para mobilização e lutas

 

 Um projeto para o país e para a esquerda 

Em 1999, ano de realização da Marcha Popular pelo Brasil, o governo de Fernando Henrique Cardoso estava com apopularidade abalada. A esquerda, aglutinada em torno do Partido dos Trabalhadores (PT), já à época apresentava sinais da falta de um projeto de enfrentamento e de acúmulo de forças para mudanças estruturais, a exemplo do papel cumprido na luta pelas Reformas de Base, nos anos 1950 e 1960.

Pautada pelo imediatismo eleitoral, a esquerda vivia uma crise que se estende até o momento. Na avaliação de Milton Viário, da Federação de Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, o foco estratégico na questão eleitoral – excluído o debate de organização, teoria revolucionária e construção de correlação de forças – é uma dificuldade que as organizações da classe carregam desde então. “Temos a necessidade de mobilizar um grupo de esquerda noutros patamares, noutra estratégia, fundamentalmente em um outro objetivo”, provoca Viário, para quem a necessidade de um projeto popular torna-se mais urgente na atualidade.

Dentro da idéia da necessidade de um projeto, Viário faz o balanço: “A única diferença para as lutas pelas Reformas de Base (das lutas da década de 50 e 60), de acordo com a consciência que adquirimos, é que havia à época uma capacidade de arrancar concessões do capitalismo, apenas com as reformas, e agora o sistema capitalista não faz nenhuma concessão”, reflete. (PC)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 RESGATE 

Marcha Popular pelo Brasil, ação pedagógica para pautar a necessidade de um projeto 
para o Brasil, completou 10 anos.

 A saída da Marcha Popular pelo Brasil aconteceu no dia 26 de julho de 1999, no centro do Rio de Janeiro, da frente da sede da Petrobras e do BNDES. Os locais escolhidos para partida e chegada da Marcha eram simbólicos, em uma conjuntura de privatizações controladas pelo capitalismo financeiro – como foi o caso da privatização da Vale, da abertura de capital da Petrobras e tantos outros exemplos.

De lá, os marchantes atravessaram os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. Foram necessários noventa dias, inumeráveis debates, mutirões, acampamentos, a

té a chegada ao prédio do Banco Central, em Brasília, onde também fica instalada a sede do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Primeira atividade prática da Consulta Popular, a “Marcha Popular pelo Brasil” reuniu 1100 militantes de diferentes movimentos sociais, da cidade e do campo, vindos de 23 estados, que percorreram ombro a ombro o equivalente a 1600 quilômetros. Os caminhantes levavam duas tarefas na mochila: um abaixo-assinado contra a privatização da Eletrobras (um dos setores estratégicos colocados à venda no período). O objetivo principal, porém, era lançar o debate sobre a necessidade de um “Projeto Popular para o Brasil”.

A marcha resgatou a simbologia do trabalho militante e de agitação de casa em casa, pessoa por pessoa. Por onde passava, realizava debates nas ruas, nas escolas, associações, universidades e igrejas. Alimentava-se nas bandeiras e necessidades do povo. Mais de 200 mil pessoas tiveram contato com o debate, apesar do bloqueio realizado pela mídia empresarial, contornado com o traba

lho militante nos meios de comunicação de cada localidade.

“A marcha foi recebida pela sociedade por onde passava com ações de solidariedade, respeito e admiração. Seu exemplo de luta mostrava para a sociedade um brasileiro diferente, resgatava a coragem, a luta e a resistência do povo brasileiro quando questionava a política econômica de Fernando Henrique Cardoso e apresentava a proposta de um Projeto Popular para o Brasil”, enfatiza Diva Braga, de Minas Gerais, militante da coordenação nacional da Consulta Popular.

Participante da coordenação geral da marcha, Dilei Aparecida Schiochet, da Assembleia Popular da Paraíba, a lutadora enfatiza o aprendizado de cada militante naquele processo. “Não existia acúmulo de tarefas na marcha, cada um tinha sua função, portanto não acumulávamos funções, a equipe pedagógica ia à frente, o estudo era organizado internamente nas paradas, procurávamos não fazer distinção entre o trabalho intelectual e braçal, o cozinheiro era tão importante quanto o outro pois sem eles a marcha parava”, recorda.

 

Chegada e unidade

Chegaram em um outubro, no dia 7, quando outros militantes somaram-se à caravana. A Marcha Popular pelo Brasil foi concluída ao longo de dois dias (de 8 a 10 de outubro) com a Assembleia dos Lutadores do Povo, com a presença de 5 mil pessoas e a “Carta aos lutadores do povo”. O projeto popular ganhava, a partir de então, cinco eixos principais: soberania, solidariedade, desenvolvimento, sustentabilidade e democracia popular. “O momento mais feliz foi a chegada. O fato de vencer todos os obstáculos. É inesquecível quando confeccionamos uma bandeira do Brasil e desse painel sai uma criança no meio – construir o novo país será obra de muita gente, persistente, audaz, solidária, se colocarmos os pés na estrada e aprendermos com nosso povo, com coragem de dizer todos os dias que um novo Brasil é possível”, sin


Parte desses apoiadores que se somaram à assembléia final eram militantes que atuaram na infra-estrutura da caminhada, buscando recursos como comida, sandálias, lonas, o que garantiu a caminhada do início ao fim. Outro grupo de militantes ia à frente, abrindo espaço para debates e discussões nas cidades onde passavam. Sintetiza Dilei.

Ricardo Gebrim, da coordenação nacional da Consulta Popular, avalia que a m

Um ato de coragem, nas palavras de um militante quando busca resgatar o espírito da época. Dez anos se passaram desde a Marcha Popular pelo Brasil. A atividade pedagógica surgiu no caldo de lutas anteriores. Mais exatamente, em 1997, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) deslocou 100 mil militantes até a capital federal, no episódio da Marcha Nacional por Reforma Agrária, Emprego e Justiça. Em 1998, foi a vez da “Marcha pelo Brasil”, quando marchas do MST deslocaram colunas do interior para a capital dos estados.archa foi um passo inicial para a consolidação das linhas de ação da Consulta Popular e do seu horizonte programático. “Permanentemente, a Consulta Popular se caracterizou pela necessidade de retomar o debate estratégico, ter um projeto com a combinação de propostas programáticas, construindo força social e apontando a luta pelo poder. A Marcha Popular foi o grande desencadeador de todo este processo”, afirma.

Confluência de marchas

A Marcha de 1997 deu fôlego para a convocatória da Conferência de Itaici, com a presença de

 cerca de 300 militantes de entidades e movimentos sociais, do campo e da cidade, onde surge o embrião da Consulta Popular. Como recorda Gebrim: “Em 1997, o MST tinha realizado uma formidável marcha que chegou a Brasília com 100 mil pessoas, a partir disso sobre o MST pesaram muitas esperanças, o que estimulou que os dirigentes do movimento convocassem a Conferência de Itaici, no mesmo ano. A Marcha foi a primeira grande ação da Consulta Popular, quando a ofensiva neoliberal vinha com muita intensidade e tinha este papel de renovar a esperança nas pessoas”, comenta.

 

 

Ação pedagógica

As derrotas da classe trabalhadora no final dos anos 1980, a ofensiva neoliberal e o período de descenso na luta de massas produziram um resultado adverso na prática militante e, de forma bastante visível, naentrega ao trabalho de base – um fator de reflexão desen

cadeado pela Marcha Popular pelo Brasil.

A educadora Ana Inês de Souza, da Assembleia Popular de Curitiba, relembra que uma frase de Fernando Henrique C

ardoso à época sintetizava o intenso ataque aos valores socialistas: “O resto é ideologia”, repetia o ex-presidente, para justificar suas açõe


Ricardo Gebrim enfatiza a ação da marcha como fator que permitiu ao debate do projeto popular ser pautado com mais força. “O mais importante foi a experiência de exemplo pedagógico. Para apresentar um projeto diferente, os militantes não iam de ônibus ou de avião, ao contrário, foi uma marcha real, de ação pedagógica, tanto para os marchantes, que se qualificaram dando cursos, debates, como para a população, que passou a entender a questão do projeto popular, por meio desse exemplo, em milhares de locais. Grande es de ataque aos trabalhadores e descaracterizar o pensamento socialista. “A marc

ha era um momento de olhar para si e se ver. Havia uma angústia da falta de mobilização daquele momento, uma crise homérica de valores”, relata Ana Inês.

xperiência de exemplo pedagógico, fundindo a ideia do projeto popular enquanto ação”, analisa.

 

Mesmo em meio 

à concentração da mídia nas mãos dos empresários, Milton Viário, da Federação dos Metalúrgicos do Rio Grande do Sul, defende que a ação militante e o trabalho de base atingem uma escala considerável de conscientização. A Marcha Popular foi um exemplo disso. “Subestimamos o trabalho pequeno, mas ele se multiplicando torna-se um poder muito grande, não um poder que atinge 50 milhões de pessoas num dia como o da televisão, mas tem uma capacidade de colocar ideias nas ruas, pautá-las para debate”, comenta. 

As medidas fundamentais para alterar o sistema de poder

 

 Democratização da terra, democratização do solo urbano, democratização do capital, democratização da informação, democratização da cultura.

 No Paraná, preparativos ocorreram em contexto de criminalização

No Paraná, preparativos ocorreram em contexto de criminalização Preparação para marcha conflui com luta contra criminalização, marcha de sete colunas do MST e acampamento de Curitiba (PR)

A Marcha Popular pelo Brasil desencadeou o debate do projeto popular, uma palavra de ordem para a militância semear nos estados. Assembleias de lutadores do povo disseminaram-se. O Paraná não fugiu à regra. Para dar uma ideia, em atividade da Consulta Popular realizada na cidade de Umuarama, a simbologia escolhida para dar nome à assembleia foi a de Augusto Cesar Sandino, o “general de homens livres”, presente na luta anti-imperialista e na revolução do povo nicaraguense.

O sentido era a retomada da simbologia e do ânimo da militância. “Era um momento de discutir o Brasil, de fazer formação. Uma ação política muito forte, com um sentido forte. A assembleia dos lutadores do povo (Brasília) foi emocionante, os encontros de formação da Consulta Popular participavam sempre 200 militantes, de diferentes organizações”, recorda Fernanda Striker Baggio, do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), que à época articulava a Consulta Popular junto aos movimentos sociais.

Logo depois, em Curitiba, no ano 2000, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) estava acampado em frente ao Palácio Iguaçu, na Praça Nossa Senhora de Salete, como forma de denunciar a política do arquiteto e governador à época, Jaime Lerner, notório pela truculência contra o movimento na realização de despejos forçados. No mesmo ano, foi marcante para o movimento a morte do militante do MST, Antônio Tavares, na rodovia próxima a Curitiba, em um confronto com a polícia. Todos esses fatores fizeram parte da conjuntura local naquela época.

Uma “Fábrica de mobilização” é a imagem usada pela educadora para falar do trabalho da Consulta Popular naquele período. Em paróquias de bairros como a Vila São Pedro – periferia de Curitiba –  foi organizada uma assembleia com 700 militantes de comunidades de base da igreja. A educadora Ana Inês de Souza, da Assembleia Popular de Curitiba, reconhece o momento de descenso que as pastorais vivem hoje. Ressalta, entretanto, o protagonismo das comunidades de base em ações como os plebiscitos populares. Ana Inês recorda de um caderno publicado sobre o não pagamento da dívida, editado pelas CEBS, que tinha como título: “Deus disse que não paguemos as dívidas”.

Na memória da educadora, a Marcha Popular impulsionou o trabalho para os plebiscitos que seriam realizados nos anos seguintes: o primeiro sobre o pagamento da dívida pública interna e externa, em 2000, e logo após contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em 2002.

Como avaliação daqueles trabalhos, a educadora coloca que o saldo de debate do projeto popular, marcado por mutirões, atividades e debates em escolas, entre a militância e a sociedade, não se capilarizou naquele momento em nucleação e assembléias permanentes, nos locais de trabalho e moradia, ainda que tenha sido uma ação de formação e luta para toda uma geração de militantes. (PC)

Como avaliação daqueles trabalhos, a educadora coloca que o saldo de debate do projeto popular, marcado por mutirões, atividades e debates em escolas, entre a militância e a sociedade, não se capilarizou naquele momento em nucleação e assembléias permanentes, nos locais de trabalho e moradia, ainda que tenha sido uma ação de formação e luta para toda uma geração de militantes. (PC)realizados nos anos seguintes: o primeiro sobre o pagamento da dívida pública interna e externa, em 2000, e logo após contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em 2002.

 

 

Fonte:Trechos de Matéria feita por Pedro Carrano no aniversário de 10 anos da Marcha Popular Pelo Brasil - ao Brasil de Fato