Últimas da crise e o que nos resta de virtude na política

Nas últimas semanas, o cenário político está mais intenso, mais dinâmico. A crise política e mais especificamente Eduardo Cunha são os centros do noticiário. Nesse turbilhão, é importante trazer algumas reflexões sobre os últimos acontecimentos e apontar em que reside uma oportunidade para afastar a perplexidade que condena tantos brasileiros à inação.

Os editoriais do O Globo e da Folha de São Paulo já manifestaram a adesão ao ForaCunha!. Entretanto, essas manifestações expressam um desejo apenas parcial de retirar o presidente da Câmara. Afinal, a grande imprensa sobrevive, nos últimos tempos, da mesma pauta que ainda dá vitalidade ao Cunha: o impeachment.

Cunha há muito já não serve ao governo, porque faz-lhe oposição declarada, e passou a não servir à oposição, pois não tem legitimidade política suficiente para levar às últimas instâncias o impeachment, nem postergar por tanto tempo esse desgaste, porque o seu próprio desgaste é ainda mais expressivo.

A tentativa agora é de tornar legítimo o impeachment. Os editoriais ForaCunha! são apenas uma parte da linha política. Há também os outros editoriais, que tentam robustecer a fracassada tese do impeachment e fomentar o discurso da instabilidade política e econômica. Enfim, a mudança é tática das elites, mas tem conseguido realizar com sucesso a estratégia de desestabilizar a governança do país.

Seja alterando o presidente da Câmara, para convalidar os atos iniciais de instauração do impeachment, seja apoiando minguadas manifestações de rua, tais como as que foram tentadas neste domingo (13), a grande imprensa se mantém firme em apoio ao golpe.

Nesse cenário, até mesmo por sustentar suas defesas no poder do seu cargo, é evidente que Cunha não se retirará por decisão própria. O STF terá que intervir, assim como já está fazendo quanto ao impeachment. E uma vez mais a política se realizará através dos tribunais, como vem se realizando em alguma medida. O papel político do Judiciário será exercido em meio a essa luta política da qual participa ativamente a grande mídia.

Até agora, as forças do impeachment tem agregado a burguesia internacional, a grande imprensa, as forças políticas mais retrógradas, uma parte da burguesia interna brasileira, mas não tem adesão popular. Por sua vez, o ForaCunha! vem aglutinando diversos setores da sociedade, desde o povo até setores dos grandes meios de comunicação.

Diante de tantos outros esgarçamentos do funcionamento da máquina pública – a exemplo das questões que envolvem a Operação Lavajato –, o sistema político e as instituições do Estado vem passando por um intenso questionamento sobre a legitimidade dos seus atos. Questiona-se se haverá saída nesse estado de coisas em que se encontra o Estado brasileiro.

Os discursos apresentados giram em torno de uma crise fiscal e das pedaladas. A ideia de uma crise fiscal é propagandeada como inevitável e que deveria levar todos os brasileiros à resignação quanto à diminuição dos seus direitos sociais. Quanto às pedaladas, em resumo, o governo é acusado de manobrar as contas públicas para ampliar os ditos “gastos sociais”.

A tragédia é porque o suposto vício do governo é justamente sua virtude: os investimentos sociais. A questão é justamente como angariar novas virtudes para o programa; como dar mais oportunidades ao povo para não só sair da miséria, mas também para refazer o Estado brasileiro em seu favor.

A virtude, nesse momento, é conformar um bloco no poder – perfazendo um conjunto de alianças – capaz de canalizar o histórico recente de benefícios populares para, primeiro, uma resistência ao golpe que a oposição e frações da burguesia empreendem e, segundo, para avançar em reformas estruturantes. A missão fica ainda mais difícil após as derrotas eleitorais da esquerda na América Latina, ultimamente na Argentina e Venezuela.

Por um lado, o cenário é de intensificação das lutas políticas, sendo ainda mais necessária a participação popular. Por isso, a Frente Brasil Popular, composta por diversas organizações de esquerda da sociedade, convoca manifestações para o dia 16 de dezembro, em todo o Brasil, contra o golpe, contra o ajuste fiscal, pela reforma política e pelo Fora Cunha! Por outro lado, o horizonte do pragmatismo ainda predomina e o percurso que se impõe à sociedade e à esquerda parece longo, de reorganização, o que requer paciência. Mas necessário ser trilhado com dedicação desde já.


Consulta Popular Sergipe


Editorial Expressão Sergipana: Texto publicado no dia 14 de dezembro de 2015, originalmente postado no link: http://wp.me/p6yEsY-nI