Alerta que caminha: o golpe no Paraguai e a centralidade da luta anti-imperialista.

Uma derrota na luta popular gera inúmeras manifestações do espírito. Desde a dor e a tristeza à indignação e revolta. Aos revolucionários e revolucionárias acende-se sinais de alerta. Momento no qual, deve-se pensar a prática e reorganizar o curso da guerra.

Se a estratégia tem primazia e subordina a tática e a organização, ao passo que depende delas, é fundamental acertar naquela primeira, sob pena de termos derrotas importantes irreversíveis à curto prazo.

 

O momento em que as classes dominantes investem contra um projeto político que visa a atender aos interesses da classe trabalhadora e é vitoriosa, é um momento de infelicidade para o povo e para os seus lutadores e lutadoras, os quais devem sempre [sempre e sem exceções] lutar por melhores condições de vida para os humildes, para “os de baixo”, como no dizer de Florestan Fernandes.  

A lógica do quanto pior, melhor só é eficiente no plano das abstrações, nas ficções, capazes que são de forjar heróis, acima de tudo e de todos, com poderes extra-humanos, que nestes casos, surpreendem com magia os seus inimigos, renascem das cinzas e gozam vitoriosos no final.

Não é disto que estamos nos referindo. O que nos importa é o movimento real das sociedades humanas que se dá através da luta entre classes e forças sociais, portanto, uma luta pelo poder político entre portadores de interesses antagônicos.

Neste instante em que as elites dominantes insurgem contra o povo Paraguaio através de um Golpe de Estado, toda a militância política da América Latina vê-se obrigada a pensar as suas práticas e estratégias. Como diria Marx num texto clássico esquecido pela esquerda, “cada passo de movimento real vale mais do que uma dúzia de programas” (MARX, A Crítica ao Programa de Gotha, 1875).

Tragicamente, o movimento real representou em pleno século XXI mais uma edição de Golpes de Estado com outra roupagem, é claro [espectro que seguirá rondando o nosso continente rebelde], que tal como no caso Hondurenho, tende a ser de difícil reversão, em virtude da ausência de forças sociais capazes de questionarem o poder arbitrário e se apresentarem enquanto alternativa real às massas no plano imediato.

A unidade política do arquétipo de Frente Golpista Constitucional [assim denominamos], que amparadas na lei e na ordem burguesa, visam impedir a ascensão e o aprofundamento de governos progressistas na América Latina, é assegurada pela presença de forças sociais extremamente reacionárias, composta pelas oligarquias locais, as multinacionais do agronegócio [a exemplo da Monsanto e Cargil] e os grandes veículos de comunicação de massa, tal como o Jornal ABC Color, que é dirigido por um indivíduo chamado Aldo Zuccolillo, membro da Sociedade Interamericana de Prensa e principal sócio da Cargil no Paraguai. Todos e sem exceção atuam em consonância e para salvaguardar os interesses do império estadunidense em crise.

O povo Paraguaio deverá enfrentar uma guerra popular prolongada, centrada nos próximos períodos no acúmulo de forças que aponte para a possibilidade de se derrotar uma direita fisiológica e autoritária, historicamente inimiga de quaisquer avanços democráticos naquele país.

Ademais, o Paraguai enfrentou num curto período duas guerras sanguinárias e uma guerra civil, as quais geraram uma profunda crise econômica e social que são sentidas pelo povo paraguaio até os dias de hoje.

Entre 1864 e 1870 o Paraguai viveu a Guerra Grande contra a Tríplice Aliança [Brasil, Argentina, Uruguai]. Uma das marcas dessa guerra pró-império inglês, pôde ser sentida na população do país, mais especificamente no que tange às baixas geradas. De um total de 1.525.000 paraguaios antes da guerra, passou a 221.000 logo depois dela, dentre os quais somente 28.000 eram homens.

Posteriormente, entre 1932 e 1935 viverá um conflito contra a Bolívia, no qual disputavam o controle de uma região estratégica. A Guerra del Chaco vitimou cerca de 100 mil pessoas entre bolivianos e paraguaios.

Como resultado imediato da crise que vivia o país, soldados insatisfeitos com a guerra e camponeses pobres iniciaram uma revolução chamada Revolução de Fevereiro de 1936. Período que foi seguido até 1947, quando assolou uma guerra civil, que o dividiu em dois grandes blocos, de um lado Colorados e do outro de Liberais à Comunistas. Neste mesmo ano o Partido Colorado chegará ao poder e não sairá mais até o ano de 2008.

Uma sociedade que convive tanto tempo marcada por guerras e ditaduras somente poderia ter avanços democráticos significativos se a sua transição política fosse realizada como produto da participação popular ou de um ascenso de massas, o que não veio à tona no Paraguai, muito embora, tenha havido resistência e importantes mobilizações, tal como o momento de auge dos movimentos populares e sindicais no país, que culminou com o triunfo eleitoral em 1991 de Carlos Filizzola na capital Assunção [primeiras eleições democráticas no pós-ditadura]. 

Porém, a possibilidade de uma transição democrática, capaz de combater os canceres na sociedade paraguaia, somente se apresentou em 2008, com a eleição de Fernando Lugo, recentemente abortada.

O Ditador Alfredo Stroessner (1912 – 2006) que comandou o regime militar de 1954 até 1989, foi derrotado por um golpe [prática comum no Paraguai], sem a participação do povo [por óbvio], em virtude das disputas entre militares e civis que explodiram a partir de 1987, durante o congresso do Partido Colorado [não o subestimemos, o Partido Colorado é uma organização de massas, possui 1 milhão e 600 mil filiados].

Stroessner caiu, pois já não era útil para a oligarquia paraguaia e os Colorados queriam prevenir uma ebulição social, em que forças populares se apresentassem enquanto alternativa à ditadura, a mais longa e uma das mais cruéis da América Latina.

Só para se ter uma idéia das atrocidades cometidas neste período, o recente relatório da Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai revela que o regime patrocinou quase 20 mil detenções arbitrárias ou ilegais, mais de 18 mil torturas à opositores, mais de três mil militantes, intelectuais e cidadãos exilados, 336 desaparecidos e 59 executados. Além disso, tornando evidente o caráter de classe da ditadura stronista, a grilagem e a distribuição ilegal de terras, alcançou quase 30% das terras agricultáveis daquele país.

A “transição” paraguaia preservou o partido e as forças sociais da Ditadura no poder, que ultrapassaram toda a década de 1990 optando pela via neoliberal, portanto, subordinando o povo paraguaio ao imperialismo: o inimigo número um da humanidade.

Aqui cabe um breve resgate teórico.

Para Lênin, o capitalismo se transformou em imperialismo, em virtude: a) do processo de concentração da produção, que passou a gerar monopólios; b) a conformação de um novo papel dos bancos, passando a ter predomínio sobre a produção industrial, formando uma oligarquia financeira.

Ademais, se para Marx em O Capital “a riqueza das sociedades em que domina o modo de produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de mercadorias", no imperialismo [fase superior do capitalismo], a riqueza se apresenta como c) o predomínio da exportação de capitais sobre a de mercadorias.

Parêntese: está nítido que não colocamos ambos em contrariedade. Obviamente há uma relação de desenvolvimento entre as ideias e as práticas destes dois revolucionários.

Pois bem. Afirmará ainda o nosso dirigente Bolchevique que d) o mundo passou a ser partilhado entre as associações de capitalistas, os trustes, e, por fim, e) dividido territorialmente entre as grandes potências imperialistas.

Ora, não sejamos tão ortodoxos. Certamente muitas passagens do Imperialismo devem ser atualizadas, reconsideradas e assim o fizeram inúmeros intelectuais do nosso continente, desde que veio ao mundo essa brilhante obra em 1916. Ocorre, porém, que o seu conteúdo é incontestável e de fundamental importância para a conformação de estratégias revolucionárias consequentes.

O que aconteceu nos últimos dias no Paraguai nos afeta a todos. Trata-se de uma investida contra os povos da nossa Pátria Grande, os quais resistem contra os interesses neocoloniais. Mais do que isso, é uma investida contra um campo político internacional que compreende a centralidade das lutas anti-imperialistas no atual momento histórico e as levam às últimas consequências, ao questionarem o padrão da financeirização, os bancos, as multinacionais do agronegócio e todos os seus aliados.

Os “carperos” de lá são os nossos sem terras daqui, que tal como em Eldorado dos Carajás, tiveram suas vidas ceifadas, em virtude de um projeto de acumulação que promove cada vez mais concentração da terra e de capitais.

Se a estratégia é tudo e socialista, enquanto período de transição à sociedade emancipada, “momento no qual o estado não é outro que não a ditadura revolucionária do proletariado”, tal como anunciado por Marx naquele mesmo texto de 1875, só a alcançaremos se compreendermos os dilemas concretos particulares do continente latino americano e sua formação econômica e social, relacionando-os dialeticamente aos determinantes gerais da reprodução do capital.

A consequência política desse entendimento está expressa na passagem do comandante Schafik Handal, quando afirma que “não se pode atingir o socialismo senão pela via da revolução democrática anti-imperialista, mas tampouco se pode consumar a revolução democrática anti-imperialista sem atingir o socialismo. De maneira que entre ambas há uma ligação essencial indissolúvel, são facetas de uma única revolução e não duas revoluções. Se olhamos de agora para o futuro, o que se apresenta é a revolução democrática anti-imperialista e que não se apresenta com uma revolução à parte, senão como a realização das tarefas próprias da primeira fase da revolução socialista” (HANDAL, O poder, o caráter, a via da revolução e a unidade da esquerda, 1980).

Ou os revolucionários latino-americanos compreendem questões fundamentais do processo da revolução em nosso continente ou seguirão a reboque de uma estratégia idealista [o contrário oposto de todo o nosso materialismo histórico dialético] e colocarão em risco a vitória, seja por identificar mal o inimigo em cada momento histórico, seja por lutar contra todos de uma só vez, sem ao menos termos a força social da transformação amadurecida, desenvolvida na luta de classes.

Ao fim e ao cabo lançarão falsas bandeiras de agitação: por um governo operário, camponês e das amplas massas, quando no caso paraguaio, por exemplo, inexistem essas forças capazes de exercerem o poder. Por isso que a campanha impulsionada neste momento pela Frente Democrática no Paraguai é: Lugo Vuelve e não Socialismo Já!

Que os próximos períodos não nos sejam desfavoráveis como o Golpe no Paraguai e tal como as recentes ameaças no Equador e na Bolívia.

Eis o momento de acumularmos forças para um projeto de transformações estruturais. Isso passa necessariamente por identificarmos os inimigos principais neste momento histórico e lutarmos para derrotá-los. Uma batalha fundamental neste sentido, estamos convencidos, serão as eleições presidenciais em 7 de outubro na Venezuela [mais uma vez]:

Nós estamos com Chávez e venceremos!

 

Mario Neto é da Direção Nacional da Consulta Popular; associado da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia (AATR/BA) e do Comitê Baiano Pela Verdade (CBV).