Enxugando gelo na luta do transporte

 

 

 

 

Os próximos dias serão decisivos para a luta contra o aumento das tarifas e pela ampliação do passe livre. Isso porque o número de pessoas nos atos tem diminuído (“o amanhã vai ser maior” não tem se repetido), gerando, para alguns, a sensação de que desta vez as ruas serão derrotadas. 

Por Thiago Duarte Gonçalves

Podemos culpar Governo X ou Y pela eventual derrota, transferindo responsabilidades. No entanto, cabe a nós que estamos nas ruas avaliar o que nos cabe para sairmos vitoriosos.Assim, coloco aqui algumas questões a serem analisadas desta complexa luta.

 

1) Há, sem dúvidas, uma sensibilidade social quanto ao tema. Metrô, trens e ônibus lotados, sem qualidade, com corrupção comprovada no transporte sob trilhos de SP e um aumento de R$ 0,50 para boa parte da população, além do resquício no imaginário popular das manifestações de junho de 2013, são elementos que ajudam a entender o porquê 10 mil pessoas estiveram nas ruas na primeira sexta-feira do ano.

2) Porém, a novidade deste ano é que não houve um reajuste igual para todo mundo na tarifa de ônibus. Setores foram beneficiados com a tarifa zero escolar (aproximadamente 500 mil estudantes), além do congelamento do valor para uma boa parcela da população (eco das manifestações juninas). Isto tudo nos ônibus, já que nos metrôs e trens de Geraldo Alckmin nada esta garantido, havendo reajuste igual para tod@s.

3) Outro fato importante é a repressão “sofisticada” da PM de Geraldo Alckmin. No I ato foram cerca de 51 detidos, sendo poucos com ferimentos ou marcas no corpo e muita bomba e gás lacrimogênio. No II ato foram cerca de 8 detidos, sendo que o número de bombas e gás lacrimogênio foi muito maior, sendo sempre desproporcional e se justificando num suposto ataque à PM (mentira deslavada!). Lembrando que neste II ato, o término da manifestação era na Secretaria de Transporte do Estado de SP, ou seja, a PM atuou para que a manifestação não chegasse ao seu patrão Geraldo Alckmin. Eles aprenderam que uma nova quinta-feira sangrenta como aquela de 13 de junho de 2013 pode gerar um sentimento de solidariedade na sociedade, evitando a repressão com marcas e explorando a repressão pelo medoO triste disso tudo é o silêncio do nosso Prefeito diante da violência policial.

 4) Assim, tratar a luta deste ano da mesma forma que foi em 2013 é um erro político.Primeiro, é importante destacar que a luta se dá em âmbito municipal até metade do ano de 2015, pelo menos, momento de renovação dos contratos com as empresas de ônibus. Até lá, tem que haver tensionamento para que parte das demandas das ruas seja atendida, em especial a retomada de uma Empresa Pública Municipal dos Transportes e a ampliação da tarifa zero/ passe livre. Deste jeito, enquanto as aulas não começarem, não há caldo para mais de um ato por semana, sob pena de ter atos esvaziados, com os mesmos de sempre, não impulsionando a luta.

Outro ponto a ser pensado: a omissão de alguns movimentos e organizações em relação ao aumento da tarifa nos metrôs e trens, depois da roubalheira que se descobriu sob o comando do PSDB com os cartéis da Siemens e Alstons, além da não garantia da tarifa zero escolar para os mesmos estudantes já garantidos pela prefeitura, sinaliza erro político dos mais graves. Ora, porque poupar Geraldo Alckmin neste momento, não tendo o mesmo peso e foco na hora de se manifestar e ao escolher sua proposta de trajeto para o ato? 

A juventude que participa dos atos deu um recado a esta incoerência na última assembleia de sexta-feira (16.01.2015) antes do ato, ao escolher um trajeto diferente do proposto pelo MPL e outras organizações, por não aceitar a omissão das ruas ao comandante maior da PM em SP.Outra coisa: o que preocupa mais a população hoje não é o aumento das tarifas de transporte, mas a falta de água nas casas. Assim, lutar pura e simplesmente pela questão do transporte, sem a vinculação a falta de água, é mais um erro, pois significa impor uma pauta ao povo. É preciso juntar as lutas, sob pena de debatermos o aumento da tarifa (e suas contradições expostas acima), enquanto a população não tem água para beber, tomar banho, cozinhar, além de outras necessidades essenciais.

 E na questão da falta de água e no aumento dos transportes há algo em comum: a prioridade dada a interesses privados em detrimento do público, já que não há uma Empresa Municipal de Transportes para deter a sanha lucrativa dos empresários de ônibus e a Sabesp continua se pautando privilegiando o lucro de seus acionistas.Além disso, é preciso abrir um diálogo amplo com os movimentos de moradia sobre a importância deles nestas duas pautas, de maneira conjunta e não para fortalecer determinado movimento X ou Y, já que uma parte importante dos sem teto não foi beneficiada por qualquer medida anunciada até agora em relação ao transporte, sendo que é publico e notório que os mais pobres sofrem desde o ano passado com a falta de água nas suas residências.

4) Enfim, são algumas contribuições para uma reflexão. Uma luta apenas do transporte, mais de uma vez por semana, neste momento histórico, com a repressão “sofisticada” da PM, omitindo-se perante o Governador de SP, tende a ser derrotada nas ruas. E é tudo o que não queremos. Por fim, é preciso destacar que a não basta lutar apenas por questões econômicas, pois a classe política será a mesma, caso sejamos vitoriosos economicamente. Ora, os mesmos picaretas nos Congressos/ Câmaras e Prefeituras/ Governos, recebendo financiamento empresarial nas suas campanhas, defendendo interesses escusos e distantes do povo, é que o que nos restará, caso fiquemos no economicismo.

 Assim, a pauta econômica tem que estar atrelada há uma luta política de mais médio prazo, buscando um plebiscito oficial por uma Constituinte Exclusiva do Sistema Político. Só assim as reformas estruturais entrarão em pauta verdadeiramente, na união destas reformas com a disputa pela Constituinte. O resto é enxugar gelo...

 

         Por Thiago Duarte Gonçalves, militante da Consulta Popular/SP