A esquerda e as lutas necessárias

 

 

 

O caminho passa pelo fortalecimento da Constituinte e de um programa popular.

Vivemos um momento de ascensão das lutas sociais, quando os trabalhadores passam a ver na mobilização uma saída para a resolução de seus problemas. Este movimento não inicia com junho de 2013, mas é bom lembrar que o número de greves no país já havia passado de cerca de 300 greves, em 2004, para mais de 900, em 2013.

Isso não quer dizer que esta ascensão de lutas conflua para um projeto político de esquerda, uma vez que a oposição, a alta classe média e os setores conservadores da sociedade brasileira conseguem pautar, com capacidade real, uma agenda ao mesmo tempo conservadora na política e neoliberal na economia.  

Nesse sentido, são fundamentais bandeiras que apontem uma saída política para o atual impasse, de maneira a fortalecer a organização e projeto dos trabalhadores – sem, contudo, abrir um flanco para esses setores golpistas.

A convocatória do dia nacional de lutas no dia 13 de março ganha papel importante por isso, a partir das bandeiras da soberania nacional e uma Petrobrás de fato a serviço do povo, longe da privatização, terceirizações e desmonte da empresa; contra a retirada dos direitos dos trabalhadores; por democracia que neste momento só se expressa com uma reforma política.

Entre as iniciativas de reforma política, é preciso enfatizar a Constituinte para o sistema político, enquanto proposta que prevê participação e envolvimento popular.

Aproveitando o caldo ideológico forjado pelos empresários da comunicação, a oposição sai de anos na apatia e sem capacidade de proposta real, para então interferir na conjuntura política. O mais perigoso é a capacidade de influenciar inclusive vários setores da classe trabalhadora e da juventude.  

Conta, para isso, com a imensa falha da opção dos governos dirigidos pelo PT em aplicar políticas que significaram melhoria das condições de vida da população, e mudaram sensivelmente o ânimo dos trabalhadores para a reivindicação. Porém, isso não veio seguido de qualquer trabalho de politização, organização e convocatória à luta.

 

A esquerda não pode ficar contra o muro, ou em cima dele.  

 

Neste momento, de retração econômica e impossibilidade de a frente política no governo conceder benefícios a trabalhadores e empresários ao mesmo tempo, em uma grande coalizão de classes que conhece o seu teto, a luta política ganha em dinamicidade e exige respostas precisas.

Frente a este cenário, a reação da esquerda não pode mais uma vez polarizar entre duas posições imobilistas.

A primeira delas seria a caracterização do momento apenas como de contraposição ao golpismo (ou, pior ainda, de silêncio frente à esta ameaça), o que reflete uma posição defensiva, sem agenda, num jogo de xadrez ditado pelo tempo do adversário. É a política de tentar levar o jogo até o final, fugindo com poucas peças.

A outra posição incorre na tática – sem consequência benéfica para os trabalhadores – adotada pela oposição de esquerda nos últimos dez anos, que chega neste momento de encruzilhada com setores incômodos reivindicando a mesma tática que a sua. Autoproclamação ou explicações por meio de notas contam pouco neste momento em que as organizações de esquerda respondem pelos seus posicionamentos concretos.

No mesmo sentido, ficar à margem da luta política, aguardando ser visto pelas massas como a alternativa, guarda algo de purismo idealista.

 

E a saída? 

 

É preciso incidir na atual conjuntura cobrando as medidas necessárias no período. Avançar em pautas e medidas para os trabalhadores é a única saída.

O sistema político é um cancro que impede qualquer aspiração a medidas progressistas, de qualquer ordem. Uma Constituinte Exclusiva e Soberana para o Sistema Político teria a capacidade de transformar uma indignação difusa com o atua modelo político em um processo de fato mudancista, com participação popular.

Esta bandeira pode ser um catalisador para os outros ramos que conformam um programa popular, como a Saúde pública, a questão urbana e rural, os direitos das mulheres, a comunicação, etc.

Em resumo, a esquerda não pode ficar limitada a duas opções: apanhar contra as cordas ou, ainda, assistir a tudo de fora da luta política, em cima do muro, permitindo que os aparelhos privados de hegemonia apenas engrossem o caldo do conservadorismo, que sempre se volta contra a esquerda, seja de qual tendência for.

Trabalhadores, em período de crise, exigem uma saída, e é fundamental que a esquerda apresente as suas medidas. 

 

por Pedro Carrano, jornalista, escritor e militante da Organização Consulta Popular.