|Expressão Sergipana| América Desconhecida, saudações a Galeano

Tenho vinte e cinco anos

De sonho e de sangue

E de América do Sul

Por força deste destino

Um tango argentino

Me vai bem melhor que um blues

Sei que assim falando pensas

Que esse desespero é moda em 76

E eu quero é que esse canto torto

Feito faca, corte a carne de vocês

(Belchior)

 

A “mania” separatista praticada pelos colonizadores contra os trabalhadores do mundo é uma receita infalível de contenção social. Este método teve clara eficiência ainda no processo de escravização de seres humanos africanos no Brasil. Percebendo que escravos oriundos de uma mesma tribo, onde se falava a mesma língua, organizavam fugas e quilombos de maneira recorrente, os Senhores de engenho passaram a distribuí-los de maneira “embaralhada”, aglutinando escravos de tribos distintas e sem capacidade de comunicação.  Este método deu conta de aprisioná-los à língua portuguesa, impor uma barreira ao desenvolvimento religioso e permitiu dificultar a união daqueles que viriam a formar o esqueleto da classe trabalhadora do Brasil.

Na força numérica está a grande arma dos oprimidos contras as leis, estado e poder econômico. A ideia de Simon Bolívar, o libertador, era formar uma grande pátria em nosso continente a partir da luta anticolonialista e pelas mãos do povo trabalhador desde a Venezuela. Bolívar não foi apenas um militar, mas um grande líder político a frente do seu tempo, que engendrou ideias libertadoras e democráticas em nosso território latino. Porém, no Brasil, o militar de maior prestígio nacional (patrono do exército) foi um exterminador de índios e perseguidor de revoltas populares. Duque de Caxias pode simbolizar a “lealdade” da nossa burguesia aos colonizadores a partir da covarde guerra do Paraguai e, portanto, também simbolizar a nossa separação do sonho de Bolívar.

Assim nos separaram da África, dos Hermanos latinos e conseguiram imputar no imaginário brasileiro uma proximidade muito maior com as elites Norte Americanas e Europeias.

Este ano perdemos um dos grandes estimuladores da reaproximação dos povos da América Latina. O Uruguaio Eduardo Galeano que faleceu aos 74 anos, no dia 13 de abril, entrou para história através do mundo literário, mais especificamente pelo seu modo crítico, independente e revolucionário. O seu Livro “As Veias Abertas da América Latina” foi a principal obra dispersada pela América do Sul na tentativa de examinar a espoliação colonial das riquezas e dos povos originários.

Galeano viveu para ver a ação dos tupamaros no Uruguai, as resistências aos Golpes Militares e também a investidas revolucionárias em diversos países. Mas não só viu como apoiou e esteve presente nas lutas das trincheiras progressistas. Sua marca foi tão forte que o seu Livro, inclusive, foi um “presente-recado” enviado por Hugo Chavez a Obama na ocasião da sua posse.

Como se fosse cronometrado, Galeano faleceu alguns dias após a realização da cúpula das Américas, onde foi celebrado o fim do bloqueio econômico a Cuba. Um bloqueio que durou mais de 50 anos na tentativa de esgarçar a economia da ilha e suplantar a ousadia daquele povo que heroicamente não permitiu a transformação da ilha socialista num novo Haiti.

Galeano lutou pela redescoberta de uma América desconhecida - Não é exagero afirmamos que desde sempre nos afastaram dos “Galeanos” desta América-.  As mãos invisíveis nos ensurdeceram para as canções andinas e através do noticiário um jovem desprevenido em pleno século XXI reproduz ódio a Evo Morales, o presidente com cara de povo, enquanto discute o casamento do príncipe Inglês.

Bolívar, José Martí, Che Guevara, Tiradentes e Marighella agora se juntam a Galeano nas lembranças daqueles que resistem.  Num futuro próximo, com tantos anjos da guarda, nossa juventude sonhará menos com Disney World e mais com Machu Picchu. E será possível! Para além do trabalho, nosso povo liberto viajará por nossa Grande Pátria colorida e irmã.

Viva a união dos povos! Viva Galeano! 

 

Consulta Popular Sergipe 

Fonte: 

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