|Expressão Sergipana| Ser mãe é um ato de coragem

Em meados da década de 70 na Argentina, mulheres ficaram conhecidas pelo embate direto à ditadura cívico-militar ao denunciar e cobrar punição aos responsáveis por desaparecidos políticos, torturas e genocídio de cidadãos, dentre os quais, estavam seus filhos e netos. Desde então, estas mulheres tornaram-se conhecidas como as Mães e Avós da Praça de Maio. Uma grande contribuição histórica para a luta pela memória, verdade e justiça que até hoje buscam para costurar os retalhos da vida que foram estraçalhados.

Assim como na Argentina, as mulheres tiveram e ainda tem participação direta nos grandes conflitos políticos a exemplo do que vem acontecendo na Palestina e Síria, onde cumprem o papel de verdadeiras combatentes contra o extermínio de seus povos. Mas também vítimas da opressão masculina e da destruição das famílias as quais são responsáveis.

No Brasil, o conflito armado que tem atingido a vida das mulheres é aquele que diariamente acontece nas periferias entre a polícia e o crime organizado que, sob um falso discurso de combate ao tráfico, tem ocasionado o crescente extermínio do povo pobre e negro, na maioria jovem.

Em Sergipe, por exemplo, um jovem negro tem 4,24 vezes mais chance de ser assassinado do que um jovem branco, como comprova o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial 2014, elaborado em parceria da Secretaria Nacional de Juventude da Presidência da República, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Ministério da Justiça e o escritório da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no Brasil. Os dados utilizados são de 2012.

Pergunta-se então, como é ser mãe nesse “pé de guerra”? Há quem culpe as mães por seus filhos serem alvos da polícia e ache solução na redução da maioridade penal, vide a PEC 171/93 que teve a proposta de reduzir a maioridade de 18 para 16 anos aprovada na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em abril.

Com muitos direitos fundamentais negados, como educação, saúde, moradia, etc., a probabilidade do envolvimento com o crime aumenta, sobretudo entre os jovens. Entendemos que são as políticas e ações de natureza social que devem desempenhar um papel importante na redução das taxas de criminalidade e não mais punição e repressão. Reduzir a maioridade é transferir o problema e aumentar o sofrimento das nossas mães. Para o Estado é mais fácil prender do que educar.

A vida de mãe não é fácil. Quantas mulheres ainda hoje são discriminadas por serem mães solteiras? Quantas precisam se dedicar a jornadas de trabalho dentro e fora de casa? Essa é a história de muitas lutadoras que, num ato de coragem, se desafiam a serem mães numa realidade em que muitos parceiros se excluem do cuidado dos filhos e das tarefas domésticas.

O compartilhamento com os homens e com o Estado das tarefas do cuidado é a saída para avançar na autonomia das mulheres, como a garantia de creches, lavanderias públicas e restaurantes populares. Em nosso estado, por exemplo, há um número insuficiente de creches públicas para atender a demanda de crianças, principalmente na grande Aracaju onde se concentram os bairros mais populosos. É muito evidente como uma política que mexe diretamente na vida das mães trabalhadoras é tratada com desprezo pelos órgãos públicos.

Além disso, na divisão sexual do trabalho, as mulheres ocupam postos de trabalho precarizados, sendo muitos deles terceirizados ou informais. É necessária a participação destas mulheres na política para a garantia dos direitos da trabalhadora e assim se extraia o peso e as tantas culpas de ser mãe nesta sociedade machista.

Que possamos, como as Mães e Avós da Praça de Maio, construir junto ao povo um novo sistema político através de uma Constituinte que garanta a justiça às trabalhadoras e trabalhadores. E que assim, ser mãe seja, antes de tudo, um ato de coragem para dar vida ao novo.

 


Consulta Popular Sergipe

Fonte: 

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