Formação socioeconômica do Brasil e patriarcado são tema de formação feminista no nordeste

Nos dias 10, 11 e 12 de outubro, as mulheres da Consulta Popular Nordeste estiveram reunidas em Sergipe para estudar e debater o patriarcado na formação socioeconômica do Brasil. Estavam presentes os estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba.

O curso aconteceu no Centro de Formação Canudos, localizado no Assentamento Moacyr Wanderlei, do MST, no Povoado Quissamã, no município de Nossa Senhora do Socorro, vizinho a Aracaju, fortalecendo nosso princípio de unidade entre campo e da cidade. Contamos com a assessoria de Thaís Lapa, da Coordenação Estadual da Consulta Popular São Paulo e militante da Marcha Mundial das Mulheres.

As mulheres abriram o curso com uma breve discussão a respeito da vida e obra de Heleieth Saffiot, feminista marxista brasileira, cujos escritos são base para o feminismo da Consulta Popular, e o conceito de Patriarcado. Para essa discussão, utilizaram também o filme “Lanternas Vermelhas” (1991). Desse ponto, as mulheres partiram para a discussão sobre a formação socioeconômica do Brasil.

Para Thaís Lapa, estudar o conceito de patriarcado já é, por si só, uma demarcação. “A gente reivindica que, ao estudar a formação social brasileira, não estamos somente entendendo a constituição do Brasil enquanto país capitalista, mas também patriarcal. Falamos, por exemplo, de como estava constituída a divisão sexual do trabalho, a dominação sobre a sexualidade, o corpo e a vida das mulheres, e é impossível, falando de Brasil, não levar em consideração a questão racial. Demos bastante atenção pra forma como as mulheres negras vivenciaram sua sexualidade e seu trabalho em uma sociedade que foi colonial, escravista, e também patriarcal”.

Bernadete Monteiro, da Direção Nacional da CP e do setor nacional de mulheres, reforça a importância do estudo do conceito de patriarcado nesse primeiro momento do módulo, a importância de entender suas bases materiais. “Hoje em dia, o conceito de patriarcado é abandonado no âmbito da academia, mas também por vários movimentos, porque utilizar esse conceito implica explicitar a desigualdade e a hierarquia, e pensamos o patriarcado como um sistema de poder, algo que existe independentemente da figura concreta do opressor, como nos mostrou o filme Lanternas Vermelhas. Por isso resgatamos esse conceito, e ele é muito importante para nós em nossas formulações”, disse.

No segundo dia, as mulheres se debruçaram sobre os escritos de Heleieth Saffioti, Beth Lobo, e sobre a questão do trabalho das mulheres no Brasil, desde a escravidão, até a entrada no mercado de trabalho. Segundo Letícia Carvalho, da direção estadual da CP da Paraíba e do Setor Nacional de Mulheres da Consulta, essa discussão é imprescindível para entender como se deu a exploração do corpo das mulheres negras na formação do nosso país, e também para entender a região. “Foi muito bom ver todas as mulheres participando do curso e trazendo várias contribuições sobre a formação social brasileira a partir das revoltas em nossos estados, de coisas que aconteceram e que fazem parte da realidade do nordeste. Isso mostra que precisamos ampliar nossa discussão sobre a formação social e econômica brasileira junto à temática das mulheres”, afirmou.

Fortalecer a formação feminista para fortalecer a participação das mulheres no partido

Para Bernadete, há um outro elemento importante a se considerar quando debatemos a formação socioeconômica do Brasil, que é o fortalecimento da atuação das mulheres para dentro do partido. Segundo ela, “apropriar-se dessas categorias, desses elementos importantes da organização da nossa sociedade é muito relevante, porque muitas vezes isso está na mão dos homens: são eles que falam mais desse assunto e que estão mais apropriados disso. Nós queremos tomar isso em nossas mãos, pois queremos estar junto nesse processo de construção, de entendimento da forma como nossa sociedade é organizada, e também construir esse processo de resistência e de rompimento com essa exploração-dominação”.

Compreender a história de nosso povo para forjar a nova sociedade

Compreender a formação socioeconômica brasileira é entender sobre quais bases foram construídas a exploração e a manutenção da dominação de nosso povo e também entender como ele vem se organizando para resistir e confrontar as elites. Nesse sentido, estudar as bases materiais do patriarcado desde nossa formação social é importante, pois não superaremos o capitalismo em uma “forma pura”, porque ele se conforma como um nó com o patriarcado e o racismo. Isso significa que as bandeiras que sustentamos, de combate à violência contra a mulher, legalização do aborto e superação da divisão sexual do trabalho, não são meramente pontos conjunturais de luta, mas questões que organizam nossa sociedade, e sem superarmos esses elementos, não superaremos o próprio capitalismo.