Mulheres se mobilizam em todo o mundo contra a precarização do trabalho feminino.

Rana Plaza, Bangladesh. Fonte: REUTERS/Andrew Biraj.

No Brasil, dizemos não ao PL 4330!

 Na última sexta-feira, dia 24 de abril, mulheres do mundo todo se uniram nas “24 horas de solidariedade feminista”, organizada pela Marcha Mundial das Mulheres. Cada país, das 12h às 13h, organizou diversas ações, completando as 24h, acompanhando o ciclo do sol. As ações fazem parte da 4º Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres.

A data foi escolhida pelos dois anos do assassinato de mais de mil trabalhadoras e trabalhadores em Dhaka, Bangladesh, no prédio de Rana Plaza, que abrigava diversas confecções de roupas. 

O prédio, em condições precárias, desabou, matando trabalhadores e trabalhadoras. A maioria eram mulheres, trabalhando em situações extremamente precárias, ganhando um salário mínimo irrisório. Afirmamos que foi um assassinato, e não uma tragédia, porque os patrões sabiam das más condições de estrutura do edifício, e nada fizeram para evitar o ocorrido.

No dia anterior ao desabamento, uma grande rachadura se abriu no prédio. Grande parte das trabalhadoras e trabalhadores se recusaram a entrar, porém, a coação por parte dos patrões com a ameaçade perda do emprego obrigou-as/os a irem trabalhar. No dia 24 de abril de 2013, então, o edifício desabou, causando 1138 mortes, sendo a maioria esmagadora de mulheres. Das quase 3000 feridas, grande parte perdeu totalmente a capacidade de trabalhar.

As confecções que funcionavam em Rana Plaza vendem seus produtos a grandes empresas como Walmart, C&A, Benneton, entre outras. Através da lógica da terceirização, essas empresas agem como se não fossem responsáveis pelas precárias condições de trabalho das pessoas que fazem suas roupas.

No Brasil, nos solidarizamos às mulheres de Rana Plaza, e denunciamos o PL 4330, que visa expandir a terceirização para todos os ramos do trabalho, precarizando ainda mais a situação das mulheres brasileiras. Foram realizadas diversas ações denunciando a terceirização e os malefícios que isso traz para a vida das mulheres.


 Em Salvador, na Bahia, na ação encabeçada pelo núcleo Negra Zeferina da MMM, as mulheres denunciaram a Contax, uma das maiores empresas de telemarketing do mundo, que atende a grandes bancos como o Citibank e o Itaú, e empresas de telefonia como a Claro e a Tim. O trabalho terceirizado dessa empresa emprega hoje muitas jovens negras de maneira extremamente precarizada, havendo inclusive denúncias de trabalho análogo à escravidão.


As mulheres reafirmaram a denúncia ao PL4330, denunciando esse congresso conservador, que caminha a passos 

largos contra os direitos das trabalhadoras. Afirmaram a necessidade de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político: “Os responsáveis pela aprovação do PL 4330 são políticos que ao invés de representarem o povo brasileiro, têm o rabo preso com grandes empresas, e por isso votam pela precarização da vida das trabalhadoras. São empresas que financiam as campanhas de grandes políticos.”, dizem em seu manifesto. “Nós, mulheres, somos hoje menos de 10% do congresso nacional, sendo que a maioria das deputadas não representa nossos interesses. Enfrentamos a exploração do nosso trabalho, vidas e corpos todos os dias. E no Brasil, nesse dia de ação feminista no mundo, lutar contra a exploração das mulheres é defender a Constituinte. É defender o poder nas mãos do povo brasileiro para que façamos nós o que a burguesia não fará em nosso favor: construir um Projeto Feminista e Popular para o Brasil!"

Em Fortaleza, no Ceará, as mulheres realizaram uma intervenção também em frente a Contax, denunciando a terceirização e as condições precárias de trabalho das mulheres na empresa, que envolvem assédio moral, baixos salários, entre outras violações dos direitos trabalhistas. 

No Sergipe, na cidade de Aracaju, a ação de solideriedade feminista também foi em frente a uma empresa de telemarketing, a Alma Viva. As mulheres realizaram uma panfletagem, dialogando com as trabalhadoras a respeito do PL4330 e sobre a precarização do trabalho das mulheres e a necessidade de nos organizarmos para garantir nossos direitos.


No Estado de São Paulo, foram realizadas ações na capital, em São Bernardo (região do ABC) e em Campinas, focando principalmente no Walmart.  A rede varejista transnacional era o segundo maior comprador das roupas

confeccionadas em Bangladesh, sendo uma das que mais lucrava em cima da exploração da força de trabalho das trabalhadoras. A rede ainda é amplamente conhecida pelas irregularidades trabalhistas, pagando baixissimos salários para os/as empregados/as, praticando intenso assédio moral, e até impedindo as/os trabalhadores de irem ao banheiro, obrigando-as/os a usar fraldas. Após o desabamento em Bangladesh, foi feito um acordo jurídico de segurança entre as empresas que compram produtos do país, o “Accord on Fire and Building Safety in Bangladesh” (Acordo sobre incêndios e segurança predial), para ampliar a fiscalização nos prédios das confecções têxteis. O Walmart, até hoje, se nega a assinar o acordo.

Foram realizadas panfletagens, intervenções com a batucada, dialogando com a população quecompra no lugar, mas também, e principalmente, com as trabalhadoras. Na cidade de São Paulo, as mulheres realizaram uma intervenção na parte de dentro, colando adesivos nas roupas, e lendo um manifesto, e também fora, com a batucada e palavras de ordem contra a terceirização e o PL4330. Em São Bernardo, as mulheres realizaram panfletagens e intervenção com cartazes na porta da empresa, denunciando a política de subcontratação. Em Campinas, com as palavras de ordem “ô, ô, Walmart, presta atenção, somos mulheres contra a exploração”, as mulheres realizaram panfletagem e batucada no terminal do ônibus que dá acesso à loja, chamando atenção da população para a precarização da mão de obra feminina.


Em João Pessoa, na Paraíba, as mulheres realizaram um lambe-lambe lembrando a impunidade das empresas transnacionais mediante o massacre de Bangladesh e a impunidade nos casos de violência contra a mulher, trazendo á tona o caso Ana Alice, jovem de 16 anos que foi estuprada e assassinata em Queimadas, no ano de 2012. A jovem era militante do Polo da Borborema, no dia 19 de setembro de 2012, quando voltava da escola, foi sequestrada e barbaramente violentada. Seu corpo foi enterrado na zona rural do município de Caturité, só sendo encontrado 50 dias após o crime. Foi a pressão do movimento de mulheres que possibilitou que o caso fosse investigado, resultando na prisão dos envolvidos, que agora aguardam julgamento. Dessa forma, em nome de Ana Alice e de todas as mulheres vítimas de violência, que nas 24 horas de solidariedade feminista as mulheres da Paraíba também afirmaram: Justiça para Ana Alice!

Em Recife, Pernambuco, as mulheres realizaram intervenções na UFPE, denunciando a precarização do trabalho feminino e as grandes empresas da moda que se utilizam dele para lucrar cada vez mais. Também denunciaram o PL 4330 e o conservadorismo do Congresso Nacional, exigindo uma Constituinte para a reforma política: “Nós mulheres somos as primeiras a ter os trabalhos terceirizados e precarizados, por isso hoje nós denunciamos esse congresso. A gente quer mudar, e pra mudar avida das mulheres, precisamos mudar a política. Pra mudar a vida das mulheres, a gente reivindica uma constituinte exclusiva e soberana do sistema político”, afirmou Gleisa Campigotto, do Núcleo Soledad Barret da MMM, em sua intervenção.

Em Cuiabá, no Mato Grosso, as mulheres realizaram sua ação na Praça da República. Ao som da batucada, foram captando a atenção dos transeuntes, fazendo falas contra a exploração das indústrias sobre nossos corpos e trabalho. Em marcha até a praça Ipiranga, fizeram panfletagens, dialogando com as trabalhadoras do local. As mulheres fizeram uma intervenção em frente a loja Marisa, e depois ocuparam a praça, onde seguiram com as falas e a batucada. A ação contou com cerca de 70 mulheres e, após o encerramento, algumas se encaminharam a´Assembléia Legislativa para protestar contra o deputado Eduardo Cunha, que estava em Mato Grosso para falar sobre a Reforma Política.


Em todo o mundo, as mulheres denunciaram a precarização do trabalho feminino, a situação de violência em que nos encontramos no emprego, os baixos salários, o assédio moral e sexual. Continuaremos mobilizadas pelo veto ao PL 4330, e por condições de igualdade de condição e de salário no trabalho entre homens e mulheres! Lutamos, ainda, por uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, para democratizar o poder em nosso país, sumo a um Projeto Popular para o Brasil.


Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!

 

 

Fotos: Marcha Mundial das Mulheres - Brasil, Núcleo Negra Zeferina, Núcleo Soledad Barret.