Não foi um acidente: é um modelo

Quando uma tragédia como a que ocorre na região de Mariana acontece, somos tomados de muitos sentimentos: compaixão, raiva, indignação, medo. As inúmeras campanhas de solidariedade às vítimas demonstram que somos afetados diretamente pela dor do outro, ainda que não o conheçamos pessoalmente. Faz parte da nossa condição humana essa sensação de impotência frente a um desespero tão real e uma das saídas que encontramos é nos prontificar a ajudar, seja recolhendo roupas e dinheiro para os atingidos, seja através de orações, seja atuando como os heróis anônimos, que rompem a barreira policial para tentar salvar pessoas e animais.

Essa reação é digna, louvável e merece ser incentivada. Mas é preciso também pensar e atuar mais a fundo. Este não foi um acidente natural. Está demonstrado que a causa do rompimento da barragem não foi um tremor de terra ou algo que não poderia ter sido planejado. É preciso investigar os motivos que levaram ao acontecimento e entender. Porque ele não é um fato isolado.

O Brasil, e especialmente Minas Gerais, é rico em minério. Ele foi duramente explorado desde os tempos de colônia, e segue como um dos motores da economia. Para garantir a extração desse material e, teoricamente, gerar riqueza e desenvolvimento, o poder público, em todas suas esferas, transfere para a iniciativa privada sua exploração, em troca do pagamento de alguns impostos e “compensações” sociais e ambientais.

Essa lógica se aprofundou com a privatização da então Vale do Rio Doce, em 1997, em um processo cheio de irregularidades e classificado como um crime de lesa-pátria, tamanha a discrepância entre o valor da empresa e o que o Estado recebeu por ela. Antes mesmo de vender a empresa por pouco mais de R$ 3 bilhões, o então presidente Fernando Henrique Cardoso aprovou uma lei que isenta as mineradoras de pagar tributos pela circulação de mercadorias e serviços, uma operação que retira bilhões do orçamento público.

Diversos movimentos populares alertam há décadas sobre o risco para o país e sua população desse modelo predatório, que gera destruição ambiental, exploração do trabalho e mortes.

Não é à toa que se configura como resumo da tragédia a palavra de ordem “não foi acidente”. O desastre faz parte de uma lógica, amparada na economia, nas leis, na estrutura do governo que se rende ao mercado, interessado somente em lucros. E não custa repetir: esses lucros são apropriados sempre por muitos poucos acionistas e empresários.

O Estado, por sua vez, nega seu papel de agente público ao se posicionar ao lado desse modelo. É no mínimo revoltante que o governador escolha a sede da empresa responsável pela destruição para uma coletiva de imprensa. Com esse gesto, o governo parece demonstrar seu lado.

Somos e seremos solidários. A dor, especialmente a dor dos trabalhadores, vítimas do sistema, é nossa dor. Mas a dor é também motor de revolta, de questionamento, de organização. Essa tragédia explicita que é cada vez mais necessária a denúncia desse modelo predatório e novas formas de lidar com a natureza e com a humanidade.