Nota Assembleia Estadual de PE: A Caravana do Projeto Popular

 

Entre os dias 05 e 07 de agosto, realizamos em Recife a II Assembleia estadual da Consulta Popular em Pernambuco. Nos reunimos em um dos momentos mais contraditórios e difíceis da luta de classes em nosso país.

O golpe contra as conquistas do povo brasileiro e contra a democracia representa a saída conservadora da classe dominante ao rebatimento da crise internacional do capital sobre nossa economia. Para se impor, o neoliberalismo necessita de conjunturas de choque a partir das quais possa acelerar o desmonte de conquistas e de direitos, bem como a entrega do patrimônio público sem ter de prestar contas para o conjunto da população. A ruptura do pacto democrático que vigorava desde a constituição de 1988 e a constituição do governo golpista de Michel Temer são elementos centrais para o avanço do imperialismo sobre o patrimônio do povo brasileiro e sobre a América Latina.

Sem tergiversações, afirmamos nosso compromisso com a luta pela democracia e por um Projeto Popular de Nação. A saída para as forças populares não passará por negociações de gabinete com as forças reacionárias, nem pela crença de que o retorno à conciliação dos interesses de classe possa abrir um novo caminho de conquistas. Esse nunca foi o caminho de libertação do nosso povo. É nesse sentido que reafirmamos nossa contrariedade à proposta de um plebiscito para novas eleições no atual contexto do golpe. Tal proposta segue sem viabilidade por não interessar nem ao Imperialismo, que necessita da ruptura com a democracia para avançar contra as forças populares e tem na continuidade do governo ilegítimo seu melhor aliado, nem às forças populares, que necessitam afirmar um projeto autônomo nas ruas e construir força própria para os enfrentamentos que virão.

É da unidade que irá nascer a novidade. A saída para as forças populares passa pelo aprofundamento da unidade construída em torno da Frente Brasil Popular e da bandeira “Fora Temer”. É necessário ampliar a ciranda que construímos contra o golpe para envolver pelo exemplo pedagógico e pelo trabalho de base um conjunto cada vez mais amplo de nossa jovem classe trabalhadora na luta pela manutenção e ampliação de direitos. O Brasil vive uma profunda crise de destino. É necessário reaprender a costurar as bandeiras que nascem da exploração e violência praticadas contra a classe trabalhadora, mas também de sua resistência, cultura, criatividade e paixão, em uma grande mandala que represente um projeto de poder para o povo brasileiro. Nossa saída não aponta, portanto, para a renovação de um pacto com o atual sistema político. É necessário organizar o povo para refundar o Estado brasileiro através de uma Constituinte soberana que ponha fim ao sistema político herdado da ditadura.

O povo pernambucano sabe bem o que os pactos pelo alto operados pelos donos do poder significam. Nosso estado viveu desde a colonização a opressão renovada de oligarquias que dividem nossa terra e nossas riquezas de acordo com os interesses de poucos.  Nos dias atuais, os moinhos de engenho continuam triturando gentes. A concentração da riqueza produzida pelo latifúndio anda hoje de mãos dadas com o monopólio da mídia, essa forma de sujeitar corpos e mentes à violência do capital. Antigas oligarquias organizam-se agora para dividir o butim da entrega de nosso patrimônio pelo governo golpista, e operam diretamente seus interesses nos ministérios, transformados novamente no comitê de negócios da Casa Grande.

Mas um povo que vive na opressão vive também de sua resistência. E o povo pernambucano é também a síntese da cultura e criatividade do povo brasileiro. Sua combatividade oriunda das senzalas e quilombos, se espalha ao som do coco e do maracatu em cada canto de nosso território. Do sertão ao litoral, o Projeto de País que queremos ocupou ruas e praças nos últimos meses. Desde a praça da democracia no Derby à praça Dom Malan em Petrolina, ousamos levantar  lonas e organizar o povo para sonhar futuros. Percorremos este estado de ponta a ponta com a Caravana Popular pela Democracia, formando comitês em cada município, fortalecendo a organização, formação e luta de nosso povo. É deste processo de construção que nasce a força necessária para enfrentar  o conservadorismo e o imperialismo. Nada mais precioso, para nós da Consulta Popular, do que o aprendizado, o carinho, a solidariedade e acolhida que recebemos de tantas companheiras e companheiros, tantos abraços, tantos punhos levantados, tantas cirandas compartilhadas, tantos olhares de paixão e rebeldia que encontramos no decorrer da Caravana. Nos comprometemos a voltar a percorrer permanentemente nosso chão colocando o melhor de nossas forças à serviço dos movimentos, sindicatos e organizações populares dispostos a lutar por um projeto popular para o Brasil e para Pernambuco.

Este é também o ano que expõe os limites e possibilidades da democracia de poucos. No atual sistema político as eleições não representam em si mesmas um caminho de transformação da vida de nosso povo. Elas, contudo, abrem caminho para dialogar com o povo, enfrentar os representantes do atraso e pensar caminhos que nos permitam melhores condições à organização popular. Nos comprometemos ao apoio militante e aguerrido à candidaturas que se enfrente com o golpismo, que afirmem sua sustentação nos movimentos populares e sindicais e que pensem a transformação para além dos limites da institucionalidade definida pelos nossos inimigos. Priorizaremos candidaturas de companheiros e companheiras identificados com a unidade e força que construímos na Frente Brasil Popular e que afirmem a necessidade da superação do atual sistema político através de uma Constituinte Soberana sustentada pelas forças populares.

Realizamos nossa II Assembléia inspirados no exemplo pedagógico do Comandante Crioulo. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) durante a ditadura, pernambucano, morreu lutando contra a barbárie praticada por nossa classe dominante, ousou sonhar futuros para além dos limites do permitido. Como muitos, não é um nome conhecido de nosso povo. Sua história não se encerrou porque ainda vive em nossas ações cotidianas e na coragem de dizer não à dominação. Crioulo segue pulsando em cada enfrentamento com nossas oligarquias, na solidariedade e compromisso entre os lutadores e lutadoras do povo, nos braços cruzados das fábricas, em cada jovem negro assassinado na periferia. Como Crioulo, resistiremos às novas emboscadas do imperialismo. Reafirmamos nosso compromisso com a construção da força social e política do povo brasileiro e do povo pernambucano para exercer poder em seu próprio nome. Assumimos o objetivo de refundar a esquerda brasileira a partir da unidade e força das lutas atuais nas ruas, do compromisso com a mística e com o amor ao povo, da luta contra todas as opressões, da construção pelo exemplo e não pelo discurso, de ampliar a ciranda praieira pernambucana para exercer poder em seu próprio nome.

 “Pra se dançar ciranda
Juntamos mão com mão
Fazendo uma roda
Cantando essa canção”
Lui Coimbra

Somos a Consulta Popular!