Nota da Consulta Popular em memória da companheira Paula Adissi

“Ter companheiros é como ter vida longavida eterna.

É saber que mesmo depois da mortepoderemos

permanecer vivos.”Paula Adissi


Hoje, uma estrela há de brilhar mais forte, com a energia de milhões de sóis. Alça voo para a eternidade dos que lutam a vida inteira a brilhante luz de Paula Adissi. A companheira imprescindível, a mulher gigante, a sempre menina, mãe, artista, lutadora do povo, poeta, feminista, militante dessa vida, costureira de fantasias, anunciadora de sonhos, criadora de novidades, trabalhadora, agitadora, mágica, brincante Paula, nos entregou hoje a missão de nossas vidas: seguir a luta pela libertação do nosso povo, que deu sentido à sua existência.


Em nossos caminhos, há alguns encontros essenciais e, para Paula, sabemos que o seu encontro com o coletivo, com a luta do povo, pôs o seu ser em estado de plenitude. Sua incrível energia, a partir daí, seria empregada na construção de um mundo novo, em tornar possível no futuro, as mais altas aspirações de homens e mulheres desse país, que hoje parecem apenas sonhos.
Nesta fogueira de acreditar em utopias, Paula sabia queimar-se por inteiro. Entregou-se à tarefa da organização política de forma abnegada, com total confiança, e pulsando emoção. Ela nos atravessou com suas palavras de força, com seus olhares plenos de significado, com seus gestos completamente verdadeiros, porque jamais teve medo de forjar laços de companheirismo, e valorizava isso, enxergava o outro verdadeiramente, acima de tudo.


Paula carrega consigo uma identidade profunda com a Consulta Popular. Para nós, essa é uma grandiosa honra, porque ela incorpora o que há de melhor em nossa militância. Uma militante educadora, disposta ao processo dialético de ensinar e aprender que é a construção de uma organização revolucionária e a luta diária.


Uma militante construtora, que preferia muitas vezes estar nos bastidores tecendo o amanhã, cozendo retalhos de solidariedade, pintando flores de liberdade, costurando a bandeira da nova sociedade. Uma lutadora que, ao falar, diz as palavras corretas, nos atinge com emoção no diafragma, e nos faz querer também pertencer ao projeto no qual acredita tão veementemente. Uma comandante, portadora de iniciativas, capaz de nos conduzir nos enfrentamentos mais difíceis, e nos alegrar nos momentos de festa, dotada de ternura, ousadia e também dureza, sempre que necessário. Uma mulher inquieta, questionadora, que jamais se conformou com pobres e duros métodos de uma política sem alma. Em vez disso, buscou a poética linguagem, a cultura popular, acreditando que vem do povo a novidade e a capacidade de transformar.


A rebeldia de Paula é um atestado de firmeza ideológica, de espírito revolucionário, de amor ao povo brasileiro, e de mística. Ela sabia que não se constrói um mundo novo sem cultivar novos valores, novas relações, baseadas no cuidado, no companheirismo e na solidariedade. Talvez muitos não saibam o que a mística significa. Mas nas palavras de outra poeta é algo “que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” uma vez que sejamos tocados por ela. Paula tocou tantas e tantas pessoas com a mística, e assim seguirá.  Lembramos que Paula nos ensinou que ter companheiros e companheiras é o laço mais forte que podemos criar. Às vezes, é preciso uma marcha de muitos dias, outras vezes, basta um mate ou uma cachaça, e algumas poucas vezes, muito especiais, acontece com uma assembleia inteira, que se junta para colocar um barco no mar. Paula deixa, sobretudo, uma saudade imensa, que viverá em nós como um farol. A indicar o caminho certo, o abraço companheiro, a compreensão, a humildade, a opção pela luta permanente e incansável. Sentiremos saudade dos encontros, no dia 8 de março de muitos e muitos anos a seguir, até que sejamos todas livres. Sentiremos saudades na praia diante do mar de Cabo Branco, ou tomando uma cerveja em qualquer lugar. Teremos saudade quando ouvirmos Elba cantar para nos agasalhar, ou mesmo quando for silêncio e estivermos todos juntos numa noite fria de Guararema. Sentiremos muita saudade em cada carnaval, e quando uma criança gargalhar, e quando cantarmos nosso hino, diante de uma bandeira vermelha e também verde e amarela. E com certeza, sentiremos saudade quando houver mística, quando dissermos seu nome, ao vermos seus filhos crescerem.
A saudade será enorme, será bela, potente, vai subir aos céus em seu voo, e chover sobre todos nós. E, temos certeza, nos encontraremos nesse horizonte, no nascer do sol da revolução brasileira. Seremos guardiões e guardiães de suas últimas palavras, que deixou à militância: “Onde eu estiver, estarei na luta com vocês”.


Agradecemos a Paula por tanto. Por ser a síntese dessa geração de militantes, e a inspiração de tantas outras que virão.
À família de Paula, seus pais, irmãos, e amigos, a Consulta Popular agradece com grande afeto e admiração, pela coragem demonstrada em todos esses meses de luta, pela dedicação, pela fortaleza, pelo círculo de cuidado que conformaram. Sabemos que vocês são essenciais, e enviamos um abraço caloroso em cada um e cada uma. Aos seus filhos, esta organização se coloca à disposição, para tudo o que for necessário. São muitos os legados de Paula, mas o maior deles, sem dúvidas, vive na mulher e no homem que vocês se tornarão. 


Consulta Popular, 5 de dezembro de 2019.