O retrocesso: imagem e semelhança de Marina Silva/PS(d)B

 

Por Vinícius Luduvice

Insatisfação com o sistema político brasileiro é notória já faz algumas décadas. Após uma transição “lenta, gradual e segura” dos militares para Sarney, de Sarney para a quase “dinastia dos Fernandos”, primeiro com Fernando Collor, que conseguiu o “semi-impossível” na história da política brasileira ser cassado (Impeachment).

Tivemos logo depois a substituição sem mudança, e assim assumiu Itamar Franco que preparou o “solo” junto a Fernando Henrique Cardoso para o próprio Fernando Henrique Cardoso (FHC) assumir a implementação do Estado mínimo para o povo brasileiro e máximo para o capital internacional.

Após o “nada” em benefícios sociais para o povo brasileiro na década de 90, “era impossível” não sonhar com o novo, com mudanças. Foi assim que depois de três tentativas o povo brasileiro conseguiu pela primeira vez na história dessa nação se aproximar de um mandato presidencial, que a época prometera sanar suas necessidades.

No entanto não vimos, muito menos vivemos as reformas estruturais que tanto almejamos durante décadas, pois as concessões feitas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para alcançar a governança, acabou não sobrando espaço para os enfrentamentos e rupturas. Assim desembocamos no “presente”, um melhorismo, que por mais que não tenha precedentes na história brasileira, está aquém do novo que “esperamos”, pois existe muito mais por fazer do que coisas feitas...Esses avanços comedidos e contraditórios produziram uma polaridade entre o maior partido da classe trabalhadora na atualidade e o maior partido eleitoral dos burgueses no Brasil. 

Esses avanços comedidos e contraditórios produziram uma polaridade entre o maior partido da classe trabalhadora na atualidade e o maior partido eleitoral dos burgueses no Brasil. 

Essa conjuntura nos coloca algumas questões para prosseguirmos: Será mesmo que existia/existe uma polaridade entre PT X PSDB ou temos uma disputa entre PT X ANTIpetista? Será mesmo que existe uma insatisfação generalizada com as políticas sociais como universalização do acesso à energia elétrica, facilitar o ingresso de população de baixa renda em escolas técnicas e universidades, promover programas de aquisição de casa própria de baixo custo, garantir cobertura médica, ainda que limitada, elevação progressiva do salário-mínimo e o acesso ao crédito à população de baixa renda etc.? (E isso não é terrorismo é só ler os programas de governo da Marina Silva/PSB e Aécio Neves/PSDB.)

Qual seria a conjuntura mais favorável - possível de materializar-se - para lutarmos pela soberania popular, por uma constituinte exclusiva e soberana do sistema político, reforma agrária, reforma urbana, saúde, educação e transporte publico de qualidade?

Está sendo criando um “cenário” – que não é espontâneo - na política brasileira principalmente pela ausência de politização da política. Esse fenômeno se espraiou principalmente após as “jornadas de junho”. Com isso o senso comum de que o principal inimigo do povo brasileiro é o PT. Desde já declaro não acreditar que todos os questionamentos ao governo Dilma/PT concordam que o Brasil “vai de mal a pior”, que o “Brasil não tem jeito”, que “o mal do Brasil é o PT” etc.

Na luta de classes precisamos ter claro em cada período qual o inimigo central e qual nosso inimigo secundário, pois a perca da razão sobre os fatos reais e concretos provavelmente não nos levará a vitória, pois é muito difícil errar na análise e acertar na ação. Sendo assim, como nos diz Lênin, são as condições políticas e sociais que condicionam de maneira direta e indireta “[...] as condições da ação e as tarefas da ação”.

Precisamos urgentemente deixar a “ideota” de que quanto pior melhor, pois é muito mais complicado lutar por melhores condições de vida sem não ter nem mesmo o que comer. Reivindicar como insignificante a mudança nas condições de vida do povo brasileiro é no mínimo igual a concordar com as “análises” do jornal nacional/Rede Globo sobre o Brasil.

Para aqueles/aquelas que duvidam da aliança do Partido Imprensa Golpista (PiG), capitaneado pela Rede Globo com as candidaturas mais conservadoras/reacionárias de Marina Silva/PSB e Aécio Neves/PSDB é só conferir no Site http://www.manchetometro.com.br/  desde 1º de janeiro a 4 de setembro de 2014, Dilma citada negativamente em 234 matérias nas primeiras páginas dos grandes jornais de circulação nacional, contra 18 capas com informações positivas. Se o PT serve apenas à burguesia por que tanto interesse em derrubar o mesmo?

Não podemos esquecer, como nos diz Singer, que “[...] A partir de 2011, nós passamos a viver uma tendência de baixa geral da atividade econômica no mundo e isso impactou o Brasil de uma maneira que não tinha acontecido, no auge da crise em 2008/09”.

As análises que sustentam Dilma/PT como principal problema do povo brasileiro não devem esquecer, como o próprio PT esqueceu, que o Estado não é neutro, que a democracia burguesa não representará nunca o povo brasileiro e que sem um novosistema político que parta de uma constituinte exclusiva e soberana do sistema político nós continuaremos bem longe do poder. 

Não ver diferenças entre Marina Silva/PSB, Aécio Neves/PSDB e Dilma Rousseff/PT é um equívoco similar ao do PCB durante o período pré-golpe empresarial/militar, quando os mesmos achavam  “confiavam” demais na possibilidade dos militares serem leais às causas populares.

As eleições não são, nem mesmo podem ser tratadas como um “BBB”. Estamos falando de vida real, onde votar “para eleger” ou “não eleger” alguém condiciona a sobrevivência ou não de milhões de brasileiros e brasileiras que infelizmente dependem das políticas sociais postas em práticas pelo PT e que as candidaturas/programas de Marina/PSB e Aécio/PSDB nunca foram favoráveis nem mesmo será favoráveis.

Por mais que o projeto petista não seja completamente contrário ao defendido por Marina/PSB e Aécio Neves/PSDB precisamos ter coragem de dizer que existe diferenças sim entre essas candidaturas, pois não é a mesma coisa dizer não e dizer sim a independência (dependente do capital) do Banco Central (BC). A independência do BC é tudo que os sistemas financeiros nacional e internacional querem, pois assim podem controlar a moeda, as taxas de juros, o superávit primário, em suma controlar a economia brasileira.

Não podemos em hipótese alguma deixar no mínimo de admitir que nos últimos 12 anos ampliamos as nossas relações internacionais com os países da América Latina, fortalecendo a resistência e enfrentando em alguns casos diplomaticamente os ditames imperialistas norte americano e europeu, construímos ativamente o BRICS, que apesar de não ser uma alternativa completamente contra-hegemônica, coloca barreiras ao Banco Mundial/FMI. Sem falar nos investimentos no Mercosul que fortalecem as articulações sul-sul. Essas posturas afastaram paulatinamente as possibilidades de acordos de livre comércio, acordos estes que foram feitos no México o qual hoje tem 51,3% da população em pobreza absoluta.

Devemos rechaçar completamente o disfarce da candidata Marina Silva/PSB quando diz/afirma ser a “boa nova” da política brasileira. Ela não só não representa o novo como traz consigo o que existe de mais arcaico no que diz respeito ao econômico, social, cultural, político.

Para confirmar essas nossas acusações é só questiona-la o fato que a levou sair do PT, ir para o PV e depois tentar fundar a REDE (“que não é” a Globo) e agora estar no PSB? Só não disse aos seus eleitores e eleitoras até quando ficará.

Marina Silva/PSB afirmou em seu programa de governo que promoverá um ajuste fiscal. Para saber o que isso pode representar para o povo brasileiro é só buscar notícias sobre a situação sócio-econômica da Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha nos últimos anos. Mas desde já adianto que esse ajuste fiscal representa a recessão na economia que ao fim e ao cabo gera desemprego em massa, cortes nos gastos públicos, com demissões de funcionários, desqualificação e sucateamento dos serviços públicos, invariavelmente na saúde, educação e transporte.

Até mesmo as propostas que aparentam ser de cunho social e que deveriam agradar o povo brasileiro carregam contradições insuperáveis, pois é impossível destinar 10% da receita da União para Saúde fazendo ajuste fiscal.

Onde um projeto de governo que tem como princípio a terceirização e a privatização representa o novo? Se essas foram algumas das premissas do governo FHC/PSDB que destruiu o Brasil e suas riquezas estratégicas, é notório que Marina Silva/PSB não pode ser o novo.

Entendemos que a polarização entre Dilma Rousseff/PT (neodesenvolvimentista[1]) X Aécio Neves/PSDB (neoliberal ortodoxo), se caracteriza por projetos diferentes tanto na política interna quanto externa. Mas com o declínio de Aécio Neves/PSDB e o “fim” da indecisão dos indecisos apoiando Marina Silva/PSB que estão pensando que votarão num programa diferente do de Aécio Neves/PSDB é só aguarda o apoio do mesmo no segundo turno. 

[1]Vide Armando Boito Júnior “As bases políticas do neodesenvolvimentismo”.

Para ratificar nossa assertiva podemos trazer a tona um trecho da acusação do próprio Aécio Neves, “É uma cópia fiel do PNDH feito no governo Fernando Henrique. Não se teve o cuidado sequer de alterar palavras".

Se Marina Silva/PSdB e sua assessoria é acusada de plagiar o programa de governo do Aécio Neves/PSdB  o que mais podemos dizer para provar que as candidaturas de Marina Silva/PSdB e Aécio Neves/PSdB não representam em nenhum aspecto as necessidades históricas do povo brasileiro?

O Clube Militar por mais que tenha voltado atrás após declarar apoio a Marina Silva/PSdB diz apoiar Aécio Neves/PSdB, mas no segundo turno com quem eles estarão? Quem foi que declarou ser contra a revisão da Lei de Anistia posição igual a dos militares herdeiros da ditadura? Marina Silva/PSdB.

Portanto acredito piamente que precisamos afastar para bem longe neste momento toda e qualquer chance de retrocessos, isso não significa dizer que a nossa única tarefa seja essa, pois “... nosso desafio principal é a construção de força social própria no interior da classe trabalhadora, objetivando a conquista revolucionária do poder” (Carlos Marighella).

Quando o velho ainda não morreu e o novo apenas está sendo gestado, precisamos ser fortes, não nos render ao possibilismo e construir um movimento de massas amplo e combativo. Acredito que uma síntese possível é a luta pela Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, pois “não temos” pior forma de dominação atualmente no Brasil do que a democracia burguesa, no atual sistema político em que “quando não damos sorte damos azar”.

Precisamos construir soluções que caminhem para reformas estruturas, pois como nos diz Rosa Luxemburgo à revolução não caminha em mão oposta ao das reformas estruturais...

Sabemos que o neodesenvolvimentismo construído pelos mandatos petistas/conciliatórios depende do crescimento da economia capitalista. Logo se continuamos dentro da crise iniciada em 2008 é aceitável que com o “recuo” do crescimento da principal da economia - chinesa –que sustentava esse crescimento, torna-se quase óbvio que esse crescimento brasileiro no mínimo ficará estagnado dando início ao esgotamento do neodesenvolvimentismo.

Esse sentimento tão generalizado “quanto gripe” de que o PT não cumpriu quase nada do que prometera, é legítimo e não pode ser colocada como menor. Até mesmo acredito que seja um consenso, mas compreendo que esse descontentamento não pode nem mesmo deve esconder que na atual conjuntura[1] esse mesmo PT pode cumprir funções que o Aécio Neves/PSDB e Marina Silva/PSB não cumprirão nunca.

Acredito que os dois maiores equívocos do PT estejam no déficit da auto-organização do povo que nos últimos 12 anos não avançou e chegou até mesmo retroceder em vários segmentos, e o segundo cometer o devaneio de achar que a democracia burguesa pode ser o caminho para o povo brasileiro superar as suas necessidades históricas.

Mas precisamos sim fazer meia culpa, pois há poucos equívocos nos últimos anos tão grande quanto creditar confiança exacerbada numa democracia burguesa quanto a brasileira? Pois foi isso que fizemos – ou deixamos acontecer - centralizamos nossas forças numa tática eleitoreira e nos desarmamos na organicidade e ideologicamente. Isso nos fez parecer, com o passar dos anos, que somos quase todos e todas iguais, mesmo não sendo.

Infelizmente ainda só as eleições no que diz respeito à política seguem tendo grande importância na vida do povo brasileiro chegando a acreditar que fazer política é votar, e que política só existe nos períodos eleitorais. E como esta situação provavelmente não mudará em caráter imediato, precisamos ficar muito atentos e não ignorar as mazelas provocadas pelas experiências de governos neoliberais ortodoxos, não só no Brasil, mas em toda América Latina, pois o mesmo representa expressamente o interesse de uma única classe, a burguesia (latifundiários, empresários, donos de bancos).

Por isso precisamos nos introduzir neste universo de possibilidades. Apesar do divisionismo na esquerda brasileira ser ainda uma constante no atual período, não temos tempo para duvidar que o projeto neoliberal ortodoxo não precisa ser formulado, precisa apenas da subida ao palácio do planalto. Sendo assim quem tem mais condições de substituir o atual estágio (neodesenvolvimentista), da política brasileira?

Por mais que um Projeto verdadeiramente Popular ainda não está colocado na ordem do dia para o povo brasileiro, precisamos ficar atentos/as a todos os retrocessos possível que estão encabeçados nas candidaturas de Aécio Neves/PSdB e Marina Silva/PSdB.

Fica assim a crença de que combater o retrocesso nesta conjuntura e denúncia aos quatros cantos do Brasil que temos uma “caixa preta” do poder no Brasil e que ela só poderá ser aberta com uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político  para que assim superemos a democracia burguesa sem povo que está posta, rumando num caminho de soberania popular onde negros e negras, índios e índias, mulheres, população LGBT e juventudes tenham autêntica participação direta.

No entanto precisamos superar nossas divergências táticas e aprendermos com Carlos Marighella que “[...] a organização revolucionária não se converte em vanguarda pelo fato de autoproclamar-se como tal. Para isso é necessário passar a ação e acumular uma força prática revolucionária convincente, pois somente a ação faz a vanguarda”.



[1] Quando falamos de conjuntura não queremos fazer especulações abstratas ou mesmo tergiversar, mas sim compreender e agir sobre informações confiáveis de dados econômicos, políticos, sociais, militares, religiosos, culturais e ideológicos e condicione a realidade não é apenas a junção de fatos, mas sim fatos políticos.

Vinícius Luduvice é Diretor de Formação do Sindicato dos Trabalhadores da Educação no Tocantins-SINTET e militante da Consulta