Outras Dandaras e Zumbis surgirão!

 

20 de novembro, dia da Consciência Negra. Completam-se 320 anos do massacre do Quilombo de Palmares, onde foram assassinados Zumbi e Dandara, símbolos de resistência do povo negro e da luta por liberdade. Passado tanto tempo, alguns insistem em dizer que o Brasil é uma “democracia racial”. Ou seja, que não há mais racismo no país e que os e as negras e negros vivem em igualdade. Tal ideia é uma mentira.

A população negra é a que mais sofre com a violência. Estudos apontam que um jovem negro possui 2,5 vezes mais chances de ser assassinado do que um jovem branco, seja pelo Estado e a polícia, seja pelo tráfico e as milícias. A maioria da população carcerária é composta por negros. O cenário é de genocídio. Inclusive o Mapa da Violência aponta um aumento assustador no número de violência contra as mulheres negras nos últimos anos, consequentemente elevando as taxas de feminicidio. São poucas as alternativas oferecidas. Jovens negras e negros não possuem acesso à educação de qualidade, trabalho digno e direitos sociais.

Nesse sentido, é simbólico o ocorrido no dia 18, em Brasília. A Marcha das Mulheres Negras reunia 30 mil lutadoras contra o racismo e a violência. Ao final do ato, dois policiais (homens e brancos) dispararam tiros em meio às manifestantes. É abominável que a elite brasileira só saiba agir diante dos negros a partir da violência.

Além disso, o povo preto não se vê nos espaços de destaque, seja nos meios de comunicação, seja nos espaços de poder. Nas novelas, lhes cabem os papéis de empregadas e de vilões. As negras são vistas como material de consumo e exportação, por meio da hipersexualização de seus corpos.

No Congresso Nacional, a presença é praticamente nula. Menos de 10% do Congresso hoje é composto por negras e negros. Não por acaso, é esse Congresso que quer aprovar uma medida para aprisionar ainda mais a juventude negra, com a redução da maioridade penal, apoiada pelo deputado Eduardo Cunha e por grande parte da mídia e dos parlamentares.

Negras e negros também sofrem mais no mercado de trabalho, ocupando os piores postos, com as piores condições e salários. Segundo o DIEESE, um negro recebe 63,7% do que recebe um branco; além de estar mais exposto ao desemprego e à informalidade. Essa diferença é ainda maior quando se analisa a condição das mulheres negras.

Por tudo isso, a importância de se desconstruir o mito da democracia racial. O povo negro tem papel fundamental na história e na cultura do povo brasileiro. Em cada canto deste Brasil ecoam sinais de resistência ao racismo, ao patriarcado e ao capitalismo. Sinais que Zumbi, Dandara, Marighella, Thereza de Benguela, Negra Zeferina, Clóvis Moura, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzales, Claudia Ferreira, Amarildo Souza e tantos outros vivem e viverão!

A luta da negritude teve e ainda terá papel decisivo na transformação da sociedade brasileira. Construir uma real abolição, que dê poder aos pretos e às pretas é tarefa primordial da construção de um país justo e democrático. Que Dandara e Zumbi se façam presentes mais uma vez e inspirem o povo brasileiro nesse caminho.

 

Foto: Isis Medeiros/Levante Popular da Juventude