RESIDÊNCIA MÉDICA: Um Médico Indignado com a Mentira Que Quer Jogar os Médicos Contra Dilma

 

 

A medicina é uma das coisas que mais curto na vida. A questão de cuidar, se responsabilizar, se envolver com as necessidades que o outro nos traz, e a dedicação de ser um promotor de felicidade e dignidade humana. Foi nisto que escolhi atuar como médico de família e comunidade, seja na docência ou na assistência.

                A busca da essência da prática médica que é a pessoa, seus problemas e a defesa de sua vida, isto foram questões que me identifiquei e que também está na escolha de muitos que escolheram a medicina de família e comunidade, como área de formação ou de atuação profissional.

                Fico entristecido quando vejo o texto de cursinhos para residência tratando nossa área com desdém, como se fôssemos sub-médicos, pois para eles “andamos de Chevette 87 e namoramos o Creisson” (notícia tão divulgada nas redes sociais estes dias). Isto porque o centro de nossas escolhas não é uma visão monetarista ou mercantilista sobre o ser médico, apesar de querermos valorização, remuneração digna em relação à responsabilidade do nosso trabalho. Fico pensando, ao ver uma notícia-aberração como esta, que tipo de valores hoje estão sendo disseminados aos jovens que buscam especialidades médicas no Brasil.

                Uma parte importante destes entra bem intencionada nos cursos de Medicina, mas parece que ao longo do tempo há uma imposição simbólica de que para ser médico, e ser um especialista renomado, precisa se submeter e se pautar por estes valores. Bem, temos grandes especialistas focais que são exemplos de humanidade e respeito ao paciente, mas quando vemos um texto como este, em um material de cursinhos para residência, e no comportamento e discurso de algumas pessoas que tem um certo conhecimento sobre alguns temas, mas os distorcem como forma de tentar afastar a maioria dos médicos de tentativas de mudanças que resgatem um sentido mais ético e humano para a formação e o trabalho médico...fico pensando em que lugar chegamos.

                Acredito que muitos médicos reagem à mudança porque não tem a oportunidade de saber o sentido de algumas propostas. No mundo todo, os países que tem sistemas universais de saúde apostaram na formação de médicos de família, sendo esta uma etapa importante na formação de todo o médico, seja na graduação ou pós graduação/residência. Por que no Brasil não podemos aprender com estes países que investiram neste caminho? E por que não seguimos o caminho que eles traçaram, de se ter um diagnóstico, por região territorial, de quantos especialistas nas diversas áreas a população precisa (médicos de família, pediatra, anestesistas, psiquiatras, etc), e priorizar a abertura de vagas de residência para estas áreas que são fortemente demandadas pela necessidade do sistema de saúde brasileiro?

                Mas enfim, os discursos mal intencionados já começaram, num oportunismo eleitoral absurdo. Recebi e-mail de colegas, também indignados (porque sabem que tais informações são equivocadas) de que o governo agora vai decidir qual especialista cada um vai ser. De que ele tem uma política para acabar com a Residência Médica no país. De que se quer “cubanizar” os médicos brasileiros, e mais algumas besteiras. ALERTO A TOD@S QUE ESTAS NOTÍCIAS, QUE PARECEM TER VINDO DE UM COORDENADOR DE RESIDÊNCIA DO HOSPITAL DE BASE DE BRASÍLIA... É PURA LEVIANIDADE!!!

                O Reino Unido fez mudanças na sua formação desde a década de 60. Espanha e Portugal vêm desde os anos 80 e 90. Austrália, Nova Zelândia, Canadá, África do Sul e outros países têm reformas na sua educação médica neste sentido. Mudanças na educação médica são a realidade de todo o país que tem uma saúde socializada, ou seja, que saúde seja direito de todos e dever do Estado. Esta visão sobre o direito à saúde não é nenhuma exclusividade de países socialistas. Pelo menos para mim nenhum destes que citei acima é socialista...pelo contrário! Mas parece que há um discurso paranóico e sorrateiro, que aproveita o efeito de massa que tem as mídias sociais, para querer gerar uma intervenção eleitoral distorcendo a fala das pessoas, e sendo hipócritas, pois não tem a coragem de assumir suas posições de defensores de uma prática de Medicina voltada ao mercantilismo, e para manter “tudo como está hoje”.

                A cegueira é tão grande deste tipo de posição, que não percebem que a cada dia toda a população, do pobre ao rico, repudiam este modelo de Medicina onde as pessoas se tornam somente coisas, somente meios para uma prática médica onde a pessoa não é mais o fim, nem o centro da atenção ...mas o próprio médico se torna este centro...é como se o mundo todo girasse ao redor dele! Esta concepção de Medicina está acabando com a imagem de nossa profissão! Há uma rejeição a este tipo de médico que não sabe “olhar no olho” do paciente, que não tem mais identidade com ele...que pratica uma medicina com tanta intervenção, muitas vezes desnecessária, que produz muitas vezes mais danos do que benefícios à pessoa tratada.

                É por isto queremos investir na medicina de família e comunidade como um caminho para melhorar ou buscar uma formação de nossos médicos mais conectada com a garantia de bem estar às pessoas. Não é que todos serão médicos de família...mas que tenham contato e possam aprender com esta área. Que sejam capazes de ter um raciocínio clínico muito melhor fundamentado, superando o modelo do médico mero aplicador de condutas, protocolos e manuais sem nenhuma criticidade. Que sabe tudo de doenças, mas não sabe nada da vida das pessoas, e como se dá e se aborda o adoecimento, que é algo muito mais amplo do que só propriamente a doença.

                Vocês que de forma velada fazem uma crítica à reforma da formação médica, difundindo levianidades nas redes sociais querendo explorar um sentimento anti-esquerda...no contexto eleitoral...vocês talvez sejam piores do que o cursinho para a residência e seu “Chevette 87”. Porque vocês são dissimulados. E covardes, pois apostam na desinformação para construir posições.

                Defender uma reforma na educação médica não é exclusividade de ser “de direita ou de esquerda”. É perceber que não dá mais para mantermos este modelo de prática médica incompetente diante da grandeza que é zelar pela vida. Se vocês são contra nossa candidata Dilma...bem, que tenham lá suas posições pessoais...mas não sejam oportunistas a querer atrelar este sentimento de vocês na oposição a uma mudança que vai nos ajudar a recuperar, no campo da formação,  muito do sentido da medicina.

                Por defender uma prática médica integral, promotora da vida e da dignidade humana, somada a lutas por justiça social neste país...é que eu sou Dilma!!! E num abro nem para um trem J

                E para aqueles que compartilham deste mesmo sentimento que o meu...da necessidade de mudarmos radicalmente a prática médica, algumas lições no prefácio do livro de um médico muito querido, que ensinou a muitos o leve domínio da propedêutica. Frases de um livro de semiologia:

"O processo de socialização* da medicina está em franca evolução em todo mundo, e temos que nos preparar para nele desempenhar o nosso papel. A experiência será má se não aprendermos a nos situar nesse processo, se insistirmos em boicotá-lo por não corresponder aos nossos sonhos, inteiramente irrealizáveis...

...Mas terá sido um sucesso se a próxima geração de médicos aprender a tornar-se membro de uma sociedade mais ampla que a própria classe**, se lhes ensinarmos na escola dignamente a responsabilidade, individual e coletiva, de guardiões da vida e da felicidade alheia".

livro: Exame Clínico - CelmoCeleno Porto
Prefácio por Kurt Kloetzel.

*Para os desavisados de plantão, socializar a medicina não é o país se tornar socialista...rs...é saúde ser direito de todos, dever do estado, a partir da garantia do direito constitucional à saúde e um sistema público e universal de saúde.

**Entenda aqui classe = categoria médica – destaques para “prevenir” as más interpretações...rs...

Vinícius Ximenes

Médico

Contribuição para o Blog Médicos com Dilma: http://www.medicoscomdilma.med.br/