Se de tudo fica um pouco, o que ficou da greve? – Sobre as outras conquistas do movimento


De tudo fica um pouco. Após 52 dias de greve, 40 atividades de mobilização, 22 atos e manifestações de rua, 89 notícias publicadas no blog – que teve mais de 14.600 acessos -, fico refletindo sobre o muito que ficou desse processo de greve.

Luciana Silvestre Girelli

Se de tudo fica um pouco,mas por que não ficaria um pouco de mim?

no trem que leva ao norte, no barco,nos anúncios de jornal, 

um pouco de mim em Londres, um pouco de mim algures?

 na consoante? no poço? (Carlos Drummond de Andrade)


De tudo fica um pouco. Após 52 dias de greve, 40 atividades de mobilização, 22 atos e manifestações de rua, 89 notícias publicadas no blog – que teve mais de 14.600 acessos -, fico refletindo sobre o muito que ficou desse processo de greve.

Para além da abertura do processo de negociação com o Governo Estadual sobre nosso Plano de Cargos e Salários e de conquistas pontuais – mas importantes – do ponto de vista administrativo, houve um conjunto de conquistas que talvez não sejam palpáveis, mas que, com certeza, só puderam ser sentidas por quem vivenciou esse rico processo. E é justamente sobre elas que eu gostaria de escrever – num pequeno texto autoral – que burla, momentaneamente, a prática jornalística de escrever relatos dos acontecimentos palpáveis.

Se de tudo fica um pouco, dessa greve ficou o fortalecimento da identidade entre os servidores do Incaper. Desde os auxiliares e assistentes de campo, passando pelos técnicos administrativos e agrícolas, até os extensionistas, pesquisadores e administrativos de nível superior, éramos uma mesma e forte categoria de Norte a Sul (passando pelo Centro Serrano e pela Sede): servidores públicos do sistema agrícola do Espírito Santo – trabalhadores e trabalhadoras do Incaper. Essa conquista não é pequena se observarmos o quanto se tenta fragmentar e dividir a categoria com propostas salariais que priorizam, em determinados momentos, ora um ou outro segmento.

Também ficou dessa greve o ensinamento da construção coletiva. Uma greve de 52 dias, com mobilização, não se sustenta sem um forte trabalho de base e envolvimento de cada servidor. Desde aquele que faz a lista do ônibus e a contagem das marmitas e dos pães com mortadela, ao que senta na mesa de negociação com o Governo e batalha pelos anseios de uma categoria inteira. Todos e cada um são partes constitutivas e viscerais do movimento de greve.

Se de tudo fica um pouco, ficou muito ampliada a democracia interna no próprio Incaper. Discutir os nossos problemas, propor soluções, intervir nos processos de negociação, ampliar o conhecimento dos nossos direitos e também deveres. Exercitamos a nossa participação política, o que é fundamental para qualquer espaço de convivência social, principalmente o espaço de trabalho. Hoje, estamos mais firmes no propósito de não abrir mão de nossos direitos e de lutar sempre por eles.

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

(Gonzaguinha)

Por que, então, não ficaria um pouco – ou muito – de criatividade, de rebeldia e de alegria? Sim, a juventude participou e construiu o movimento de greve, vencendo muitos medos e barreiras internas. Até agora, muitos não entenderam o motivo da participação dos “novos”, como se não tivéssemos motivos para nos somar à luta por sermos “precoces demais” no órgão. Participar da greve significa exatamente a preocupação com nosso futuro profissional, com melhores condições de trabalho para que possamos prestar o melhor serviço ao Incaper, aos agricultores e à sociedade. E não há data de validade para que esse processo se inicie. Ele começa desde o primeiro dia de trabalho. Fico muito feliz por ter sido a minha primeira greve – e sei que foi a primeira greve de muitos colegas – e por ela ter sido alegre, animada, organizada, respeitada, responsável, com a cara e as cores da juventude que ingressou no Instituto!

Entretanto, essa coragem não teria sido aflorada se não fossem os colegas de mais tempo no Incaper, que nos acolheram e incentivaram que tivéssemos uma participação ativa no processo. A disposição da juventude aliada à experiência dos colegas que estão há mais tempo no órgão proporcionou um formidável encontro de gerações, que qualificou o movimento grevista, tornando-o alegre e organizado; animado e responsável. Um amadurecimento para os novos; um rejuvenescimento para os de mais tempo.

Por fim, se de tudo fica um pouco, não podemos deixar de lembrar que a solidariedade entre nós e com colegas de outras categorias em greve, foi inesquecível. Caminhar com outras bandeiras, mas que também são nossas como povo brasileiro, nos fortaleceu como servidores públicos e como trabalhadores! A luta pelo meio ambiente, pela educação pública, pela agricultura familiar e reforma agrária tornou nossa greve conhecida e simpática à sociedade. Aliás, tornou o próprio Incaper mais (re) conhecido socialmente, ampliando a visibilidade do órgão em diversos segmentos formadores de opinião, como no caso da UFES e do IFES, pela aliança com as greves da educação federal.

Se de tudo fica um pouco, porque não ficaria um pouco de mim na greve e um pouco da greve em mim? Após 52 dias de greve, não tenho dúvidas de que voltaremos vitoriosos aos nossos postos de trabalho, muito mais qualificados para exercer nossa atividade profissional como servidores públicos que possuem grande responsabilidade social.

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.

(Thiago de Melo)

Paralisar temporariamente os trabalhos no órgão não significou uma falta de comprometimento com o Incaper ou com os agricultores. Significou exatamente o compromisso dos servidores com a prestação de um serviço de qualidade à sociedade, o que só se viabiliza com a valorização dos profissionais que aqui atuam. E essa valorização só se conquista com luta! Assim demonstra a história dos processos democráticos no Brasil.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo

(Thiago de Melo)

De tudo ficou um pouco. Da nossa organização, da nossa rebeldia, da nossa alegria, da nossa ousadia, da nossa união, da nossa força. Das caminhadas sob o sol, sob a chuva, com a “participação” do Governador e do Chapolin Colorado, do pão com mortadela e do almoço no Cariri, das panfletagens, do adesivo estampado no peito e da fé no coração. E assim, seguiremos em luta até que nossas condições de trabalho e salários sejam dignas – para todos e todas!

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

(Thiago de Mello)

Luciana Silvestre Girelli, servidora do Incaper, jornalista. Mestre em Política Social pela UFES. Integrante da Comissão de Mobilização da Greve.