Sindicato contesta dados de que a GM fez contratações

Trabalhadores da fábrica da General Motors em São José dos Campos (SP) atrasaram ontem a entrada em uma hora nos dois turnos de trabalho, de manhã e à tarde, em protesto contra a intenção da empresa de fechar a unidade que produz automóveis, o que pode resultar em mais de 1,5 mil demissões, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos.

 


A reportagem é de Cleide Silva e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-08-2012.

Nas assembleias, o presidente do sindicato, Antonio Ferreira de Barros, pediu aos funcionários que apresentem propostas para serem levadas à reunião de sábado com a empresa para tentar evitar as demissões.

Barros contesta informações repassadas ontem ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que a GM criou mais de 2 mil vagas em suas fábricas desde 2008. Atualmente, o grupo tem cerca de 23 mil funcionários no País.

Ele afirma que dados do Dieese, com base no Caged (do Ministério do Trabalho) mostram que a GM fechou 1.189 postos em um ano (de julho de 2011 a junho de 2012). O número ainda não inclui as 356 demissões feitas por meio de programa de voluntariado aberto recentemente.

Em nota, o sindicato afirma que Mantega, além de desconsiderar números do Caged, não teve o cuidado de ouvir a outra parte, o sindicato dos trabalhadores. "Dessa forma, o ministro diminui a si próprio, assumindo papel de mero porta-voz daGM."

O relato do sindicato informa que a GM fechou 1.044 postos de trabalho na fábrica de São José dos Campos e 349 na de São Caetano do Sul (SP) . Segundo a entidade, a única unidade a registrar saldo positivo foi a de Gravataí (RS), com 204 novas vagas.

Nas contas de Barros, as demissões na GM podem chegar a 2 mil pessoas. "Além dos 1,5 mil funcionários da MVA (unidade que produzia os modelos Corsa, Classic, Meriva e Zafira, mas atualmente só ficou com o Classic), as outras unidades que produzem componentes para esses modelos também terão cortes."

Propostas

O diretor de relações institucionais da GM, Luiz Moan, ressalta que os períodos citados pela GM e pelo sindicato são diferentes. Ele confirma que a empresa tem pessoal excedente na fábrica de São José e que "espera boas propostas do sindicato na reunião de sábado para tentar resolver o problema."

Confirma ainda que não há projetos de novos veículos previstos para a fábrica do Vale do Paraíba por causa da falta deacordo com o sindicato local. Os projetos de novos produtos foram levados para as fábricas do ABC paulista e deGravataí, cujos representantes sindicais negociaram acordos com medidas como banco de horas.

Também devem participar do encontro de sábado o secretário de relações do Ministério do Trabalho, Manoel Messias Nascimento Melo e o prefeito Eduardo Cury. Em carta enviado ao Estado, o prefeito afirma que o resultado do impasse entre GM e sindicato "era perfeitamente previsível e conhecido por toda a cidade, e levaria a empresa a reduzir os seus quadros."

Diz ainda estar convencido de que essa situação é restrita a uma das oito fábricas do complexo mantido pela GM. "Contudo, a produção permanecerá, no mínimo, nos níveis atuais, sinal de que os fornecedores da GM na região não serão afetados por eventuais demissões. Esse quadro afasta a ideia de crise na indústria."

 

Quarta, 01 de agosto de 2012

Greve de caminhoneiros divide setor e é suspensa

A paralisação de caminhoneiros, que provocou congestionamentos em 12 Estados pelo terceiro dia consecutivo e afetou a movimentação de pessoas e cargas, dividiu o segmento de transporte de cargas no país. Ontem à noite, após o governo receber representantes do setor e endurecer o tom ao avisar que só voltaria a negociar com as estradas liberadas, representantes avisaram que iriam suspender a manifestação, segundo informou o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos. Os representantes do setor confirmaram que os bloqueios começariam a ser desfeitos ontem a noite.

A reportagem é de Rafael BitencourtFernando ExmanLuciano Máximo e Guilherme Soares Dias e publicada pelojornal Valor, 01-08-2012.

A paralisação foi organizada por entidades ligadas a motoristas autônomos, donos de seus próprios caminhões e que vivem do valor de frete e de serviços comissionados, mas foi apoiada por empresas do setor de carga, o que fez parte do próprio segmento classificar o movimento como um locaute. Outros representantes do setor - como os motoristas contratados por empresas e a Confederação Nacional do Transporte (CNT) - não apoiaram o bloqueio.

O ponto de discórdia é a Lei 12.619, sancionada em abril e que regulamenta a profissão do caminhoneiro com base naConsolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Como para a maioria dos trabalhadores do país, a nova legislação estabelece, entre outros pontos, que o motorista de veículos de carga e de passageiros deve respeitar uma hora diária para almoço, descansar por 30 minutos a cada quatro horas de rodagem e repousar por 11 horas a cada 24 horas trabalhadas. Esse tempo de descanso é criticado pelos autônomos e apoiado pelos trabalhadores contratados com carteira de trabalho.

Além da jornada, a lei aprovada no Congresso estabelecia que deveriam ser montados pontos de apoio a cada 200 quilômetros nas rodovias para acolher os caminhões. Esse dispositivo foi vetado pela presidente Dilma Rousseff. Nesse ponto, a insatisfação reúne todos os segmentos do setor.

O país tem cerca de 3 milhões de caminhoneiros, dos quais metade exerce a função de forma autonôma e metade com algum tipo de vínculo empregatício. Principal entidade por trás da greve, o Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), presidida por Nélio Botelho, defende que os motoristas autônomos não terão condições de competir no mercado se forem obrigados a respeitar a nova legislação, pois dependem de comissões e precisam cumprir metas para carregamento e entrega de mercadorias. Além disso, a rede de cooperativas de transportadoras alega que o país não tem estrutura para atender à demanda, como paradas de descanso e rede de hotéis.

A sinalização dada ontem pelo ministro Paulo Sérgio Passos, de que o governo só se reuniria novamente com representantes dos caminhoneiros se as estradas fossem liberadas, ocorreu sob orientação direta do Palácio do Planalto.Passos anunciou no início da noite que o bloqueio seria suspenso nas rodovias já na noite de ontem. Em troca, o governo montou uma mesa de negociações, com a primeira reunião em 8 de agosto, e prazo de 30 dias. "Teremos uma desmobilização gradativa que deve durar, pelo menos, até amanhã [quarta-feira] pela parte da manhã", confirmou Botelho, ao deixar reunião de cerca de cinco horas com Passos.

"Todas as reivindicações cabíveis serão examinadas e todos os aperfeiçoamentos propostos serão analisados com cuidado", disse o ministro após a reunião. Passos informou que, durante as negociações, a fiscalização da jornada de trabalho terá caráter educativo. Entre pontos que também serão discutidos estão o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Carga (RNTRC), uma defasagem dos preços do frete; e o regulamento do PagamentoEletrônico do Frete (PEF), que teria sido responsável por queixas recorrentes contra a operadora financeira responsável pelas operações.

Bandeira da categoria há décadas, a lei que regulamenta a profissão foi discutida entre sindicatos de trabalhadores e aConfederação Nacional do Transporte (CNT) - principal entidade empresarial do setor - desde 2009. Com mediação do Ministério Público do Trabalho, patrões e trabalhadores chegaram a um acordo e a lei foi aprovada, mas sua entrada em vigor e a aplicação das primeiras multas foram o estopim para a greve dos últimos dias.

José da Fonseca Lopes, presidente da seção de transportadores autônomos da CNT, chama a paralisação de "golpe, um verdadeiro locaute". "Por trás da greve tem uma parcela de postos de abastecimento, uma parcela de empresas de transporte, uma parcela de empregados comissionados, uma parcela de cooperativas de transporte. A turma não quer o sistema regulamentado. Empresas temem aumento de custo e motoristas, perda de comissões", afirma Lopes.

O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes (CNTT), Paulo João Eustasia, denunciou o locaute aos Ministérios do Trabalho, da Justiça e dos Transportes. "Formalizamos a denúncia com base no que ouvimos dos nossos trabalhadores no Brasil todo. Muitas empresas estão orientando os motoristas a parar nos piquetes mesmo contra sua vontade. Não citamos empresas nominalmente, mas é o que diz a nossa denúncia", relatou Eustasia.

O presidente da Associação Nacional dos Caminhoneiros (Antrac), Benedito Pantalhão, nega que a greve seja dos empresários e disse que o movimento é pró-autônomos. "Nós compomos o MUBC e queremos condições melhores para os profissionais que não são vinculados a empresas", afirmou. Questionado se a Antrac é contra o descanso previsto na lei, Pantalhão diz que a manifestação é por conta dos problemas que a lei deve ocasionar. "Não há onde descansar e isso traz insegurança para os trabalhadores", afirma.

Nélio Botelho, do MUBC, tem o mesmo argumento. "Quem pensou esta lei não conhece a realidade das estradas brasileiras. Ela serve aos países de primeiro mundo, não ao nosso", afirmou. Segundo ele, o adiamento de um ano seria suficiente para a instalação dos pontos de apoio nas rodovias.

A paralisação dos caminhoneiros começou na quarta-feira, cresceu no domingo e atingiu ontem, segundo o MUBC, 120 mil caminhões em doze Estados. A Polícia Rodoviária Federal confirmou paralisações em seis estados e 35 quilômetros de congestionamento.