Sobre a esquerda e a polarização política

pedro carranoPolíticas equivocadas ou imobilistas, em momentos históricos decisivos, sempre cobram um preço altíssimo das organizações da esquerda.

Por Pedro Carrano*

Entre o bloco golpista e o bloco que possa retomar um projeto de desenvolvimento e políticas públicas para o país, não há espaço para vacilações, quando a política correta é incidir na polarização política.


É preciso influenciar essa polarização atual, dar conteúdo a ela, dotar de programa o que é vontade popular de mudança, ainda mais nesse momento de desmonte de direitos trabalhistas e sociais conquistados no século 20, passando pela Constituição e pelo período dos governos petistas.

Qualquer organização que se recuse a incidir sobre a atual polarização política, que tende a aumentar, e rechace a evidência de que Lula é o principal nome em 2018 para barrar o golpismo e a extrema-direita, tende a desaparecer cada vez mais do espectro político, ainda que possa existir de maneira isolada, no campo parlamentar, por exemplo.

Neste sentido, a tentativa de inviabilidade política de Lula não significa uma falta completa de saídas, mas a confirmação ao povo de que não haveria qualquer espaço democrático deixado pelo golpismo. Se alguém tem alternativa diferente, que a apresente.

Porém, posições como a de evitar incidir na polarização política se repetem na esquerda e pagam alto por isso.

Os zapatistas do EZLN quase perderam por completo sua influência e deixaram de ser força política relevante no México ao não apoiar o candidato Lopez Obrador, nas eleições de 2006, sob um desejo de um programa máximo e alternativo, quando Obrador representava uma esquerda com um programa de desenvolvimento contra o bloco neoliberal.

Vale também pensar sobre o que ficou para a história das organizações que evitaram incidir na polarização política, por julgar que o polo da esquerda não continha um programa adequado. O que ficou, por exemplo, das organizações que se opuseram ao governo Salvador Allende no Chile?

No caso brasileiro, o jornalista Igor Felippe Santos já havia chamado a atenção para essa questão ainda nas eleições 2010. Em um cenário no qual parte da esquerda questionava a candidatura de Dilma Rousseff, os movimentos sociais, o MST, o MAB, a organização Consulta Popular, não vacilaram e, apesar das críticas, submeteram sua posição aos interesses do povo que estavam em jogo, extraindo da polarização política um potencializador para as lutas.

O erro comum a muitas organizações de esquerda nesse e em tantos momentos históricos, é tratar a polarização política como algo “inexistente”, uma “ilusão” – o que carrega inclusive problemas de método de analise.

No fundo, estamos diante de vários espelhos invertidos. Várias organizações inúmeras vezes têm sido inflexíveis na política de alianças e flexíveis no método de luta. Deveria ser o contrário, o método de trabalho de base, agitação e propaganda, retomada da aliança entre o povo e a esquerda deveria ser intransigente e cotidiano. Mas isso fica solto e flexível.

O que se enrijece é a possibilidade de aliança e a inflexibilidade tática.

A busca por um programa impecável, quando exigida fora do processo de luta, configura-se num idealismo e num sectarismo que não leva a lugar nenhum. Os ensinamentos do processo e da revolução cubana trazem ensinamentos neste sentido.

É evidente que o próprio Lula e o PT também estão numa encruzilhada.

Pelo erro da experiência do ajuste fiscal aplicado depois das eleições de 2014, em meio ao calor do debate programático do segundo turno (e com a pressão de um plebiscito pela Constituinte com oito milhões de votos), o PT também pode enfrentar uma crise terminal se Lula não se convencer de que resta só um caminho: do vínculo com os movimentos populares e com um programa nacional e popular de enfrentamento à crise.

Os sinais dados com a altivez e enfrentamento de Lula nos dois depoimentos ao juiz Sérgio Moro, no contexto de organização das Jornadas de Lutas pela Democracia, em Curitiba, foram fundamentais nesse sentido. Os vinte dias da Caravana de Lula pelo Nordeste reforçaram os laços populares e podem contribuir com este contexto de mutirão em torno da palavra de ordem: “Eleição sem Lula é fraude”.

É fato que o Lula eleito em momento de descenso das lutas certamente está sujeito a outro tipo de pressão popular na atual conjuntura de crise, na qual não há saída que agrade “aos dois lados” na luta de classes, numa conjuntura de crise, marcada por receituários de ajuste neoliberal.

Em uma conversa realizada em 2009, na campanha “O Petróleo tem que ser Nosso”, quando questionado sobre o modelo de exploração da camada pré-sal adotaria, o ex-presidente respondeu à época: depende se a UNE vai colocar 100 mil nas ruas para pressionar.

Naquele momento a campanha sequer foi para frente.

Hoje, há mais força de pressão maior por parte dos movimentos e sindicatos. A disposição à luta está sujeita a recuos e avanços, próprios da luta de classes, mas a Frente Brasil Popular é a ferramenta que aglutina o melhor das organizações que estão em luta, começa a enraizar nos municípios e responder com velocidade às convocatórias de atos nacionais. Foi referência fundamental nos dias de greve e lutas dos dias 8 de março, 15 de março, 28 de abril e 30 de junho.

Fenômeno interessante, o imobilismo de uma série de organizações gerou uma crise forte. Enquanto os principais nomes – Zé Maria, Luciana Genro etc – tomaram os posicionamentos mais absurdos em nome do rancor com o PT, a militância de base chegou a participar das mobilizações antigolpe e estiveram presentes na Jornada em defesa da Democracia, durante os depoimentos de Lula em Curitiba. Foi um encontro importante dentro da percepção de qual é a tarefa central no momento para a esquerda.

A política do “nem-nem” “nem a direita nem o PT”, ignora o conflito de classes para acolher bem uma parcela da classe média intelectualizada, mas está nítido que não diz nada aos movimentos sociais, ao povo, aos trabalhadores. Isso acontece inclusive no plano internacional, quando parte das organizações não percebeu o embate em torno do poder na Venezuela e as consequências disso.
 
Pessoalmente, tive a chance de participar do encontro sul-americano de organizações e movimentos sociais da Argentina, Uruguai e Paraguai, no primeiro semestre de 2017. Chamou atenção a avaliação, comum entre as organizações, de que frente a governos de composição de classes, a esquerda muitas vezes não soube extrair o melhor possível em termos organizativos que o período proporcionou. O que sempre fica mais difícil em momentos de retrocesso, desmonte de direitos e aplicação de programa neoliberal.

“Não aproveitamos o processo para fortalecer nossa base social”, afirmou representante do Movimento Campesino Paraguaio, à ocasião.

A política do “somos a alternativa, a terceira via da esquerda”, nas condições que coloquei acima, não gerou qualquer resultado para a esquerda além do sectarismo e isolacionismo.

Fora de um processo de lutas e unidade, organização nenhuma de novo tipo vai se forjar como nova referência. E a esquerda deve ter a consciência, em um momento de fragilidade, de atuar programaticamente e pressionar o bloco que signifique melhor terreno para a organização dos trabalhadores.  

É melhor estar do lado certo da História. Ainda que isso seja diferente de nossos sonhos que parecem amplos mas, sem o pé da realidade, revelam-se estreitos.


*Pedro Carrano é militante da Direção Nacional da Consulta Popular